
Da fistulotomia ao laser, a escolha da técnica depende do trajeto da fístula, do envolvimento da musculatura anal e das características de cada paciente
Dor, inchaço e saída de secreção perto do ânus são sintomas que muitas pessoas suportam durante meses. Em alguns períodos, o local parece melhorar. Depois, volta a inflamar, drenar ou incomodar. Esse comportamento de melhora e retorno é bastante característico da fístula anal.
A fístula anal é um pequeno trajeto que geralmente conecta uma glândula infectada dentro do canal anal à pele ao redor do ânus. Na maioria das vezes, ela aparece após um abscesso anal, mesmo quando esse abscesso já foi drenado ou desapareceu aparentemente. Enquanto o trajeto permanece, podem ocorrer novos episódios de dor, inchaço e secreção.
Uma das primeiras dúvidas de quem recebe o diagnóstico é: qual é o melhor tratamento?
A resposta mais honesta é que não existe uma única técnica ideal para todas as pessoas.
Os músculos ao redor do canal anal formam o esfíncter, estrutura responsável pelo controle dos gases e das fezes. Algumas fístulas passam superficialmente por essa musculatura. Outras atravessam uma parte maior do esfíncter, apresentam ramificações ou seguem trajetos mais profundos.
Por isso, duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem receber propostas cirúrgicas completamente diferentes.
Antes de escolher o tratamento, o coloproctologista avalia o trajeto da fístula, a localização de sua abertura interna, a quantidade de músculo envolvida, a presença de inflamação e o histórico de cirurgias anteriores. Em casos selecionados, exames como a ressonância magnética da pelve podem ajudar a mapear fístulas profundas, ramificadas ou recorrentes.
O objetivo não é apenas fechar a fístula. É fazer isso preservando, sempre que possível, a continência e a função do esfíncter.
Nas fístulas mais baixas e superficiais, que atravessam pouca musculatura, uma das opções é a fistulotomia.
Nesse procedimento, o trajeto é aberto para que cicatrize progressivamente de dentro para fora. Trata-se de uma técnica tradicional, com elevada possibilidade de cicatrização quando bem indicada.
Entretanto, a fistulotomia não deve ser utilizada indiscriminadamente. Quando o trajeto atravessa uma quantidade significativa do esfíncter, a abertura completa da fístula pode aumentar o risco de alterações no controle dos gases ou das fezes. A indicação depende, portanto, de uma avaliação individualizada.
Em fístulas que apresentam inflamação persistente ou envolvem uma parte maior da musculatura, pode ser utilizado o sêton.
O sêton é um fio ou dispositivo flexível colocado através do trajeto da fístula. Sua função pode ser manter a drenagem, controlar a infecção e permitir que os tecidos inflamados se recuperem antes de uma nova etapa cirúrgica.
Para alguns pacientes, causa estranhamento saber que será necessário permanecer durante certo período com esse dispositivo. No entanto, o sêton pode ser uma estratégia importante para controlar a doença e planejar o tratamento definitivo com maior segurança.
Quando a fístula atravessa uma quantidade maior de músculo, podem ser consideradas técnicas que evitam cortar o esfíncter.
Uma delas é o LIFT, procedimento no qual o trajeto é identificado e ligado no espaço entre os músculos do esfíncter. Outra possibilidade é o retalho de avanço, utilizado para cobrir a abertura interna da fístula com um tecido saudável.
Também existem abordagens minimamente invasivas, como o VAAFT e o FiLaC.
No VAAFT, uma pequena ótica permite visualizar o interior do trajeto, identificar ramificações e tratar a fístula sob visão direta. No FiLaC, uma fibra de laser é introduzida no trajeto com o objetivo de promover seu fechamento sem dividir a musculatura anal.
Essas técnicas podem ser úteis em pacientes selecionados, principalmente quando a preservação do esfíncter é uma prioridade. Entretanto, procedimento minimamente invasivo não significa garantia de cura. Fístulas complexas podem voltar a aparecer e, em alguns casos, mais de uma etapa cirúrgica pode ser necessária. Estudos recentes consideram LIFT, retalho de avanço, VAAFT e FiLaC alternativas válidas para preservação esfincteriana, mas ainda não demonstram que uma única técnica seja superior em todas as situações.
As fístulas associadas à doença de Crohn exigem uma abordagem diferente. Nesses casos, não basta tratar apenas o trajeto.
É necessário controlar a inflamação intestinal e combinar o acompanhamento clínico com procedimentos destinados a drenar infecções e preservar a função anal. O planejamento costuma envolver coloproctologista e gastroenterologista, com decisões individualizadas para cada fase da doença.
Fistulotomia, sêton, LIFT, retalho, VAAFT e FiLaC são ferramentas. O resultado depende não apenas da tecnologia escolhida, mas da identificação correta da anatomia da fístula, da indicação adequada e do acompanhamento pós-operatório.
A recuperação também faz parte do tratamento. É preciso observar a cicatrização, controlar a dor, manter o intestino funcionando adequadamente e reconhecer sinais de persistência ou recorrência.
Quando a recomendação de uma pessoa é diferente da recebida por outra, isso não significa necessariamente que uma delas esteja errada. Provavelmente, as fístulas possuem trajetos, complexidades e riscos diferentes.
Na fístula anal, o melhor tratamento não é simplesmente o mais moderno ou o mais conhecido. É aquele que oferece a melhor combinação possível entre cicatrização, preservação muscular e segurança para aquele paciente.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma avaliação médica individualizada.
Dr. Danilo Munhoz é médico coloproctologista em Brasília. Atua com foco em técnicas minimamente invasivas, incluindo laser e cirurgia robótica, e assina conteúdos educativos sobre saúde íntima e intestinal de forma clara e responsável.
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