HPV anal capa
HPV também pode atingir o ânus, e pouca gente fala sobre isso

Um tema cercado de tabu, mas que precisa ser tratado com informação, prevenção e cuidado médico adequado

Durante muito tempo, o HPV foi tratado quase exclusivamente como um assunto ginecológico. A maioria das pessoas associa o vírus ao colo do útero, ao exame preventivo e à vacinação de meninas. Tudo isso é importante, mas existe uma parte da conversa que ainda fica escondida: o HPV também pode atingir a região anal.

E falar sobre isso não deveria causar vergonha. Deveria causar atenção.

O HPV, sigla para papilomavírus humano, é uma infecção muito comum. Ele pode acometer pele e mucosas, incluindo região genital, oral e anal. A transmissão acontece principalmente pelo contato íntimo entre pele e mucosas, e muitas pessoas podem ter contato com o vírus ao longo da vida sem apresentar sintomas evidentes.

Na região anal, uma das manifestações mais conhecidas são as verrugas, também chamadas de condilomas. Elas podem aparecer ao redor do ânus ou dentro do canal anal, em tamanhos variados. Algumas causam coceira, desconforto, sangramento ou saída de secreção. Outras são percebidas apenas durante o exame médico.

Mas aqui é importante fazer uma distinção: ter HPV não significa, automaticamente, ter câncer. Ter verrugas anais também não significa que a pessoa terá câncer. A maioria das verrugas está relacionada a tipos de HPV considerados de baixo risco. O problema é que existem tipos de HPV de alto risco que podem estar associados a alterações celulares, chamadas lesões precursoras, que em alguns grupos de pacientes merecem acompanhamento mais cuidadoso.

Por isso, o maior erro é transformar o assunto em pânico. O segundo maior erro é transformar em tabu.

 

Na prática, muita gente demora a procurar atendimento porque sente vergonha de mostrar uma lesão na região anal, porque acha que “deve ser só hemorroida” ou porque tem medo do julgamento. Esse atraso pode fazer com que verrugas pequenas se tornem lesões maiores, ou que alterações importantes deixem de ser avaliadas no momento adequado.

O olhar médico correto ajuda justamente a separar o que é simples do que exige investigação. Nem toda bolinha, coceira ou sangramento é HPV. Hemorroidas, fissuras, dermatites, abscessos, fístulas e outras doenças também podem causar sintomas parecidos. Por outro lado, uma lesão aparentemente pequena pode precisar de avaliação específica.

A prevenção começa pela informação. O preservativo reduz o risco de transmissão, mas não elimina completamente a possibilidade de contato com o vírus, porque nem toda a área da pele fica coberta. A vacinação contra o HPV é uma das medidas mais importantes de prevenção, especialmente quando feita antes da exposição ao vírus. No Brasil, a vacina está disponível pelo SUS para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, em dose única, além de grupos específicos com indicação ampliada, como pessoas imunodeprimidas, pessoas vivendo com HIV, pacientes transplantados, pacientes oncológicos e usuários de PrEP, conforme critérios do Ministério da Saúde.

Outro ponto importante é que o rastreamento do câncer anal não é indicado de forma universal para toda a população. Diferentemente do câncer de colo do útero, em que existem protocolos amplamente estabelecidos para rastreamento populacional, o rastreamento anal costuma ser direcionado a grupos de maior risco. Diretrizes internacionais recentes reforçam essa necessidade de individualizar a avaliação, considerando fatores como imunossupressão, histórico de HIV, lesões persistentes, alterações prévias relacionadas ao HPV e outros elementos clínicos.

O avanço da ciência também trouxe uma mensagem importante: em grupos de maior risco, identificar e tratar lesões anais de alto grau pode reduzir o risco de evolução para câncer anal. Isso não significa que todos devam fazer exames de rastreamento indiscriminadamente, mas reforça que pacientes com risco aumentado precisam ser acompanhados com seriedade.

Falar sobre HPV anal é, acima de tudo, falar sobre cuidado. É lembrar que saúde íntima também faz parte da saúde geral. É tirar o peso moral de uma infecção comum e colocar no lugar certo: prevenção, diagnóstico, tratamento quando necessário e acompanhamento individualizado.

Se existe uma lesão, coceira persistente, sangramento, dor, secreção ou verruga na região anal, a melhor decisão não é esperar, nem pesquisar imagens na internet, nem tentar tratar sozinho. A melhor decisão é procurar avaliação médica.

HPV anal não é motivo de vergonha. É motivo para conversar com informação, responsabilidade e cuidado.

Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.

Fontes:
– Ministério da Saúde. HPV, prevenção e vacinação contra o papilomavírus humano no Brasil. Disponível em: gov.br/saude.
– International Anal Neoplasia Society. Consensus Guidelines for Anal Cancer Screening, 2024. Disponível em: PubMed.
– Palefsky JM et al. Treatment of Anal High-Grade Squamous Intraepithelial Lesions to Prevent Anal Cancer. New England Journal of Medicine, 2022.
– American Society of Colon and Rectal Surgeons. Anal Warts and Anal Dysplasia, patient information. Disponível em: fascrs.org.

Dr. Danilo Munhoz

Dr. Danilo Munhoz é médico coloproctologista em Brasília. Atua com foco em técnicas minimamente invasivas, incluindo laser e cirurgia robótica, e assina conteúdos educativos sobre saúde íntima e intestinal de forma clara e responsável.

CRM-DF 25.847 / RQE 16.978

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