
O exame avalia o funcionamento dos músculos responsáveis pela evacuação e pela continência, ajudando a identificar alterações que nem sempre aparecem em outros exames.
Há pacientes que aumentam a ingestão de água, consomem fibras, utilizam medicamentos e, ainda assim, continuam com dificuldade para evacuar. As fezes parecem chegar à parte final do intestino, mas existe uma sensação de bloqueio, necessidade de fazer muita força ou impressão de que a evacuação nunca terminou completamente.
Em outras situações, o problema é justamente o contrário. A pessoa apresenta urgência para ir ao banheiro, dificuldade para segurar gases ou episódios de perda involuntária de fezes.
Quando sintomas como esses persistem, pode ser necessário investigar não apenas a estrutura do intestino, mas também a maneira como os músculos do ânus, do reto e do assoalho pélvico estão funcionando. É nesse contexto que a manometria anorretal pode ser indicada.
A manometria anorretal é um exame funcional. Isso significa que ela não foi desenvolvida para mostrar imagens do intestino, como acontece em uma colonoscopia ou em uma ressonância. Sua função é medir pressões, reflexos, sensibilidade e coordenação muscular.
Durante o exame, um cateter fino e flexível é introduzido delicadamente pelo ânus até o reto. Esse equipamento possui sensores capazes de registrar a pressão exercida pelos músculos em diferentes situações.
O paciente é orientado a realizar movimentos simples, como contrair o ânus, relaxar e fazer força como se estivesse evacuando. Um pequeno balão também pode ser insuflado dentro do reto para avaliar a sensibilidade e os reflexos da região.
Com essas informações, é possível analisar se os músculos apresentam força adequada, se conseguem relaxar no momento correto e se existe coordenação entre o esforço abdominal e a abertura do canal anal. Os protocolos internacionais também utilizam essas medidas para classificar alterações do tônus, da contração, da sensibilidade e da coordenação anorretal.
Uma das principais indicações é a investigação da constipação intestinal associada à dificuldade de eliminação das fezes.
Alguns sinais podem sugerir que o problema está na etapa final da evacuação, como esforço excessivo, sensação de obstrução, evacuação incompleta, permanência prolongada no vaso sanitário ou necessidade de utilizar os dedos para facilitar a saída das fezes.
Nesses pacientes, a manometria pode ajudar a identificar a chamada defecação dissinérgica. Essa alteração acontece quando os músculos envolvidos na evacuação não trabalham de maneira coordenada. Em vez de relaxar para permitir a saída das fezes, a musculatura pode permanecer contraída ou apresentar um relaxamento insuficiente.
O exame também pode ser indicado na investigação da incontinência fecal, especialmente quando há dificuldade para segurar gases, fezes líquidas ou fezes sólidas. Nesses casos, são avaliadas a força dos esfíncteres, a sensibilidade do reto e a capacidade de resposta muscular.
Outras possíveis indicações incluem alguns casos de dor anorretal funcional, alterações do assoalho pélvico, avaliação após determinadas cirurgias e planejamento de tratamentos como fisioterapia pélvica e biofeedback. A indicação deve ser individualizada, porque nem toda pessoa com constipação, dor ou incontinência precisa realizar o exame. As diretrizes recomendam que a manometria seja utilizada dentro de uma investigação clínica completa dos distúrbios da evacuação e de outras alterações anorretais funcionais.
Não. A manometria anorretal é realizada sem sedação.
Durante o exame, o paciente precisa estar acordado, compreender as orientações, contrair e relaxar a musculatura, simular a evacuação e informar quando começa a sentir o balão no reto, quando surge a vontade de evacuar e quando a sensação se torna mais intensa.
A sedação comprometeria etapas essenciais dessa avaliação, porque o resultado depende diretamente da participação ativa e das respostas do paciente.
O exame pode provocar um leve desconforto ou constrangimento, mas não costuma ser doloroso. Em geral, é realizado de forma ambulatorial, não exige internação e permite que o paciente retorne às suas atividades após o procedimento.
Não. A manometria fornece informações importantes, mas seu resultado deve ser analisado em conjunto com os sintomas, o exame físico e o histórico do paciente.
Em muitos casos, ela é associada ao teste de expulsão do balão, que avalia se o paciente consegue eliminar um pequeno balão colocado no reto. Quando os resultados são inconclusivos ou existe suspeita de alguma alteração anatômica, outros exames, como a defecografia, também podem ser necessários.
Mais importante do que encontrar uma medida fora do padrão é compreender se aquela alteração explica os sintomas apresentados pelo paciente.
A manometria anorretal não é um exame de rotina e não precisa ser solicitada para toda alteração intestinal. Quando bem indicada, porém, ela ajuda a compreender por que determinados pacientes não conseguem evacuar adequadamente ou apresentam dificuldade para manter a continência. Esse entendimento permite planejar um tratamento mais direcionado, que pode incluir mudanças comportamentais, medicamentos, fisioterapia do assoalho pélvico ou biofeedback.
Drª Aline Amaro
Médica coloproctologista em Brasília, com atuação em cirurgia a laser e técnicas minimamente invasivas, focadas em menos dor e recuperação acelerada. Produz conteúdos de saúde íntima e intestinal com linguagem clara e responsável.
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