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Quando a manometria anorretal é indicada

O exame avalia o funcionamento dos músculos responsáveis pela evacuação e pela continência, ajudando a identificar alterações que nem sempre aparecem em outros exames.

Há pacientes que aumentam a ingestão de água, consomem fibras, utilizam medicamentos e, ainda assim, continuam com dificuldade para evacuar. As fezes parecem chegar à parte final do intestino, mas existe uma sensação de bloqueio, necessidade de fazer muita força ou impressão de que a evacuação nunca terminou completamente.

Em outras situações, o problema é justamente o contrário. A pessoa apresenta urgência para ir ao banheiro, dificuldade para segurar gases ou episódios de perda involuntária de fezes.

Quando sintomas como esses persistem, pode ser necessário investigar não apenas a estrutura do intestino, mas também a maneira como os músculos do ânus, do reto e do assoalho pélvico estão funcionando. É nesse contexto que a manometria anorretal pode ser indicada.

O que a manometria anorretal avalia?

A manometria anorretal é um exame funcional. Isso significa que ela não foi desenvolvida para mostrar imagens do intestino, como acontece em uma colonoscopia ou em uma ressonância. Sua função é medir pressões, reflexos, sensibilidade e coordenação muscular.

Durante o exame, um cateter fino e flexível é introduzido delicadamente pelo ânus até o reto. Esse equipamento possui sensores capazes de registrar a pressão exercida pelos músculos em diferentes situações.

O paciente é orientado a realizar movimentos simples, como contrair o ânus, relaxar e fazer força como se estivesse evacuando. Um pequeno balão também pode ser insuflado dentro do reto para avaliar a sensibilidade e os reflexos da região.

Com essas informações, é possível analisar se os músculos apresentam força adequada, se conseguem relaxar no momento correto e se existe coordenação entre o esforço abdominal e a abertura do canal anal. Os protocolos internacionais também utilizam essas medidas para classificar alterações do tônus, da contração, da sensibilidade e da coordenação anorretal.

Quando o exame costuma ser solicitado?

Uma das principais indicações é a investigação da constipação intestinal associada à dificuldade de eliminação das fezes.

Alguns sinais podem sugerir que o problema está na etapa final da evacuação, como esforço excessivo, sensação de obstrução, evacuação incompleta, permanência prolongada no vaso sanitário ou necessidade de utilizar os dedos para facilitar a saída das fezes.

Nesses pacientes, a manometria pode ajudar a identificar a chamada defecação dissinérgica. Essa alteração acontece quando os músculos envolvidos na evacuação não trabalham de maneira coordenada. Em vez de relaxar para permitir a saída das fezes, a musculatura pode permanecer contraída ou apresentar um relaxamento insuficiente.

O exame também pode ser indicado na investigação da incontinência fecal, especialmente quando há dificuldade para segurar gases, fezes líquidas ou fezes sólidas. Nesses casos, são avaliadas a força dos esfíncteres, a sensibilidade do reto e a capacidade de resposta muscular.

Outras possíveis indicações incluem alguns casos de dor anorretal funcional, alterações do assoalho pélvico, avaliação após determinadas cirurgias e planejamento de tratamentos como fisioterapia pélvica e biofeedback. A indicação deve ser individualizada, porque nem toda pessoa com constipação, dor ou incontinência precisa realizar o exame. As diretrizes recomendam que a manometria seja utilizada dentro de uma investigação clínica completa dos distúrbios da evacuação e de outras alterações anorretais funcionais.

A manometria é feita com sedação?

Não. A manometria anorretal é realizada sem sedação.

Durante o exame, o paciente precisa estar acordado, compreender as orientações, contrair e relaxar a musculatura, simular a evacuação e informar quando começa a sentir o balão no reto, quando surge a vontade de evacuar e quando a sensação se torna mais intensa.

A sedação comprometeria etapas essenciais dessa avaliação, porque o resultado depende diretamente da participação ativa e das respostas do paciente.

O exame pode provocar um leve desconforto ou constrangimento, mas não costuma ser doloroso. Em geral, é realizado de forma ambulatorial, não exige internação e permite que o paciente retorne às suas atividades após o procedimento.

O resultado deve ser interpretado isoladamente?

Não. A manometria fornece informações importantes, mas seu resultado deve ser analisado em conjunto com os sintomas, o exame físico e o histórico do paciente.

Em muitos casos, ela é associada ao teste de expulsão do balão, que avalia se o paciente consegue eliminar um pequeno balão colocado no reto. Quando os resultados são inconclusivos ou existe suspeita de alguma alteração anatômica, outros exames, como a defecografia, também podem ser necessários.

Mais importante do que encontrar uma medida fora do padrão é compreender se aquela alteração explica os sintomas apresentados pelo paciente.

A manometria anorretal não é um exame de rotina e não precisa ser solicitada para toda alteração intestinal. Quando bem indicada, porém, ela ajuda a compreender por que determinados pacientes não conseguem evacuar adequadamente ou apresentam dificuldade para manter a continência. Esse entendimento permite planejar um tratamento mais direcionado, que pode incluir mudanças comportamentais, medicamentos, fisioterapia do assoalho pélvico ou biofeedback.

Este texto tem caráter informativo e não substitui uma avaliação médica individualizada.
Fontes
  1. International Anorectal Physiology Working Group, protocolo para manometria anorretal e Classificação de Londres.
  2. American College of Gastroenterology, diretriz para o manejo dos distúrbios anorretais benignos.
  3. Johns Hopkins Medicine, orientações sobre a realização da manometria anorretal.

Drª Aline Amaro
Médica coloproctologista em Brasília, com atuação em cirurgia a laser e técnicas minimamente invasivas, focadas em menos dor e recuperação acelerada. Produz conteúdos de saúde íntima e intestinal com linguagem clara e responsável.

CRM-DF 22.302 / RQE 18.923

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