A casa segura para a pessoa idosa: você sabe o que isto significa?

Brasília, sábado, 23 abril, 2022

Por: Juliana Gai
Atualizado em: 3 maio, 2022

Olá pessoal! Hoje vou falar de um assunto sobre o qual pouca gente sabe. Penso que devo iniciar a coluna com alguns conceitos básicos para a compreensão das relações do homem com o ambiente em que vive, assim imagino agregar novos conhecimentos e tentar popularizar uma palavra que ainda é super técnica atualmente: ergonomia.

Ergonomia é a ciência que se ocupa de analisar e melhorar a relação dos seres humanos com os ambientes e os objetos que o homem utiliza para execução de tarefas ou para repouso. Surgiu oficialmente no século XX com o advento da industrialização, onde começou-se a observar que o uso de maquinário industrial pouco adaptado às condições humanas de capacidade física e psíquica causava, com frequência, acidentes de trabalho ou doenças ocupacionais por sobrecarga. Este ponto ainda é o mais desenvolvido dentre as especializações da ergonomia, até porque as empresas precisam de seus funcionários trabalhando em bom estado de saúde, permitindo maior produção e prevenção de afastamentos, evitando prejuízo financeiro. As empresas investem em consultoria ergonômica já há muito tempo. Eu dei aula por alguns anos em especializações em medicina do trabalho e, depois, fui desenvolvendo um método próprio para uso da ergonomia também nas residências dos meus clientes idosos.

Pessoas idosas vão, com o tempo, perdendo algumas funções corporais importantes para a locomoção, a mobilidade geral, e o manuseio de objetos, tais como a função visual e auditiva, função muscular e esquelética, a memória e habilidade de resolver problemas não esperados. Especialmente após os 80 anos, pode haver dificuldade de manter o equilíbrio corporal, manusear talheres, lidar com panelas e pratos quentes na cozinha, utilizar objetos pesados como toalhas de banho muito grandes, tomar banho ficando todo o tempo em pé, transpor degraus e sentar/levantar em cadeiras, sofás, assentos sanitários ou camas muito baixos. Também é muito comum tropeçar em tapetes e mobília em rotas de circulação.

A casa da pessoa idosa pode ir ficando perigosa para ela com o passar dos anos. Porém, muitos idosos acumulam objetos e mobília ao longo da vida e tem dificuldade de desapegar. Em geral, acabam sendo os filhos que começam a perceber os riscos que as casas começam a oferecer para a integridade funcional dos seus pais e lá vão eles procurar informações sobre o assunto, remover os tapetes, colocar barras de apoio nos banheiros e estudar melhor a organização dos objetos pela casa. Hoje em dia, além de fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, designers de interiores e arquitetos especializados em ergonomia, há ótimos profissionais em “organização doméstica” que desenvolvem um bom trabalho nas casas das pessoas idosas.

Mas como convencer os idosos de que eles realmente precisam modificar os ambientes em que vivem para a própria segurança? Não vai adiantar somente contar sobre os vários acidentes por queimadura nas cozinhas que acontecem todos os anos quando o tamanho, o peso e o uso dos objetos não está adaptado para pessoas idosas. E nem contar que todos os anos, no mundo, um número expressivo de pessoas idosas cai e precisa ser hospitalizado em decorrência de quedas e, alguns, até falecem devido a complicações graves, tais como traumatismo craniano, fratura de fêmur e lesões na coluna ou costelas.
Como diz o ditado “o buraco é mais embaixo”, aceitar as mudanças passa por um exercício mental que, às vezes, é difícil para a pessoa idosa, sobretudo se a mobília e os objetos da casa tiverem muita história, como aqueles tapetes persas que foram da bisa, o faqueiro pesado e de difícil manuseio que foi presente de casamento, ou o excesso de objetos decorativos que foram se amontoando na casa a partir de heranças de pessoas amadas que já faleceram. Alguns desapegos podem doer…

Eu trabalho há muitos anos com o serviço de adaptação de residências de idosos, assim como desenvolvo projetos ergonômicos para empresas que precisam lidar com pessoas idosas circulando e utilizando ambientes e objetos. Portanto, sei o quanto é importante considerar as opiniões dos próprios idosos. Geralmente eles sentem-se mais acolhidos em ambientes com decoração mais clássica, porém a maioria dos idosos não percebeu ainda que precisa de mais luz do que precisava quando era mais jovem, portanto, bons projetos de iluminação são fundamentais e isto deve ser informado aos idosos.

Há algumas dicas que sempre dou aos filhos das pessoas idosas, para que considerem exercitar a empatia em relação aos seus pais ou outros idosos da família que precisem de auxílio ergonômico:

1. As mudanças devem ser feitas sempre de comum acordo com a pessoa idosa, já que ela é (e precisa continuar sentindo-se assim) a dona da casa. Portanto, talvez não seja possível mudar tudo de uma só vez e, sim, seja necessário ir negociando pequenas mudanças ao longo dos anos. Tenha calma.

2. Somente ajustar a residência às novas demandas da pessoa idosa não é certeza de sucesso na prevenção de acidentes e na melhoria da qualidade de vida. É importante que um fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional vá treinar com o idoso o uso do espaço e dos objetos para auxílio de equilíbrio e mobilidade, como as barras de apoio e as bengalas, por exemplo. As mudanças na residência exigem uma nova configuração das funções motoras e cerebrais, e isto precisa ser treinado.

3. Pessoas idosas precisam de atividade física pelo menos três vezes por semana de forma regular, sendo esta a única forma de controlar as perdas que interferem na capacidade funcional. E não adianta só treinar as pernas, é muito importante treinar a força dos braços e das mãos, afinal, para usar bem barras de apoio, bengalas e corrimãos, é necessário força de preensão manual.

4. Muita atenção à avaliação visual e auditiva, bem como ao surgimento de incontinência urinária. As questões sensoriais podem interferir na locomoção e no equilíbrio e a urgência em chegar até o banheiro pode causar quedas. É muito importante avaliar o trajeto noturno até o banheiro, por exemplo. Lanterninhas podem não ser interessantes para idosos porque ocuparão uma das mãos durante o trajeto, o que vai piorar o equilíbrio na caminhada.

5. Acima de tudo, respeite a pessoa idosa e suas decisões. Sentir-se desempoderado pode ser muito prejudicial ao bom humor do idoso e ele pode desenvolver sentimentos de baixa auto-estima associados ao envelhecimento e à finitude da vida, o que pode piorar sua condição de saúde geral e o levar mais cedo a desenvolver dependência. Pode ser desagradável pensar que às vezes é melhor manter o risco por algum tempo do que comprar uma briga com a pessoa idosa. A psicoterapia e a mediação/conciliação podem auxiliar o idoso e a família a gerir melhor as questões emocionais associadas às modificações ergonômicas no curso de vida. Fique atento e negocie sempre.


Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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