Ainda sobre cuidado de pessoas idosas…

Brasília, sábado, 26 março, 2022

Por: Juliana Gai
Atualizado em: 3 maio, 2022

Na publicação anterior, falei bastante sobre empatia com a pessoa que cuida de um familiar idoso e sobre como é difícil a pessoa ter a noção de que precisa se priorizar. Mas o assunto não ficou encerrado para mim, porque ao falar sobre cuidado, muitas coisas vem à cabeça, especialmente a perspectiva histórica que nos levou ao modelo atual de cuidado, em que a maioria dos familiares cuidadores são mulheres, se veem abrindo mão da própria vida e tem dificuldade de contar com a própria família no ato de cuidar dos pais idosos, ou de outro familiar idoso, como uma sogra ou um tio.

Na época medieval, por exemplo, as pessoas viviam muito pouco. Faleciam antes de precisar de cuidado. A sociedade era mais bárbara em suas decisões. A vida era muito dura e o ser humano sofria com problemas climáticos, falta de comida e roupas adequadas. Havia até tribos/aldeias que praticavam costumes interessantes perpetuados por gerações. “A BALADA DE NARAYAMA” é um filme japonês, do diretor Shohei Imamura, adaptação do livro de Shichiro Fukazawa, cuja história gira em torno de um vilarejo nos longínquos tempos de fome no Japão, onde, aos 70 anos, se ainda estivessem vivas, as pessoas eram levadas ao cume de uma montanha e deixadas lá para morrer. O homem, em condições adversas, se via numa guerra interna entre o fato de ter uma boca dependente a menos para alimentar e os outros instintos humanos, como amor e compaixão. Vale assistir, e pensar no quanto evoluímos nas condições atuais de vida que possibilitam um acolhimento maior aos dependentes de cuidado. Porém ainda temos muitos problemas sociais.

Por muitas décadas, as mulheres foram as principais provedoras de cuidado direto e elas faziam isto como sua única tarefa. Entretanto, as mulheres, na revolução industrial, foram também para o mercado de trabalho. O salário dos maridos passou a não conseguir prover a família unicamente devido às crises financeiras no pós-guerra. E as mulheres também viram no seu trabalho a possibilidade de ser libertar de amarras que as prendiam a casamentos infelizes e tarefas domésticas que nem todas gostavam de executar. A renda própria deu as mulheres liberdade de escolha, é um fato. Porém os tempos foram ficando difíceis para elas, hoje sob tanta pressão e exigência de sucesso profissional/financeiro, sem ter com quem dividir a responsabilidade de cuidar das pessoas dependentes da família, como crianças e idosos.

Quando o cuidado é bem dividido e bem administrado, é possível exercê-lo sem que o cuidador fique também sufocado e doente devido à sobrecarga, e para a pessoa idosa isto também é importante, afinal ser cuidado em um contexto de amor e aceitação por parte dos membros da família é importante para a saúde mental de todos. Eu fui estudar sobre mediação e conciliação familiar justamente para poder ajudar os meus clientes a fazer acordos nas questões relacionadas a cuidado, a decisões sobre o fim da vida e a responsabilidade de cada membro da família no processo de cuidar.

É importante buscar ajuda profissional para resolver conflitos e organizar a estratégia de cuidado, que será executada de maneira personalizada, considerando as particularidades de cada pessoa idosa e da sua família, tanto nos aspectos físicos, psíquicos, religiosos e financeiros.

E também é importante refletir sobre o fim da jornada da vida como algo natural, sobre o quê devemos conversar. Só quando falamos sobre os conflitos humanos e expressamos as nossas preocupações e insatisfações, encontramos as melhores soluções para entender melhor o outro e as decisões por ele tomadas. Sempre gosto de indicar filmes, tanto para os meus
alunos de gerontologia quanto para os familiares das pessoas idosas. Eu acredito piamente que a arte acessa territórios profundos do nosso inconsciente e que podemos trazer isto para o consciente de uma forma mais amena e tranquila por meio de uma história bem contata. Há ótimos filmes sobre dependência de cuidados e sobre decisões que as pessoas tomam em
relação a isto, além de ótimos filmes sobre o sentido da vida e da morte. Vou citar três deles que foram populares na época de lançamento e que eu gostei muito:

– O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (2007), de Julian Schnabel. Adaptação do livro de Jean-Dominique Bauby, que era editor da Revista Elle, e sofreu um acidente vascular cerebral, popularmente chamado de “derrame”, ficando totalmente dependente de cuidados.

– MAR ADENTRO (2004), de Alejandro Amenábar. Baseado na história de Ramón Sampedro, um pescador que também passou a depender de cuidado em tempo integral após um acidente que lhe causou um traumatismo na medula espinhal.

– SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE (2016), de J.A. Bayona. Baseado no romance de Patrick Ness, trata da descoberta de uma criança sobre formas de lidar com questões que também tocam os adultos: o cuidado e a iminência da perda de um ente querido, o contato com a realidade da finitude.

No meu Instagram tem uma lista maior com inúmeros filmes e eu sempre comento sobre
cinema por lá.

Até a próxima.


Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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