Cair de maduro é para fruta: as quedas em pessoas idosas

Brasília, segunda-feira, 20 junho, 2022

Cair de maduro é para fruta: as quedas em pessoas idosas
Por: Juliana Gai
Atualizado em: 20 junho, 2022

Olá, como sempre, acho bom estar de volta. E gostaria hoje de falar sobre um assunto muito importante para a saúde e qualidade de vida das pessoas idosas, a prevenção de acidentes por quedas.

É comum que o próprio idoso e a família só percebam que algo de errado está acontecendo com o idoso quando ele já caiu. Em muitos casos, a queda já gerou um agravo de saúde importante e só então entram as equipes de reabilitação para acompanhar a pessoa que caiu. Isto é uma pena, porque se o assunto fosse visto mais corriqueiramente por meio de campanhas de divulgação, por exemplo, muitos problemas para os idosos, as famílias e o sistema de saúde pública poderiam ser evitados ou, pelo menos, amenizados.

A queda é um evento não intencional, em que a pessoa sofre uma mudança de posição para um nível inferior ao que estava. Por exemplo: estava em pé, caiu e agora está no chão; estava em pé, foi se sentar, e caiu sentado na cadeira; estava sentado na beira da cama, foi se levantar, ficou quase em pé, e caiu de volta sentado na cama. Portanto, nem sempre que uma pessoa cai, ela cai ao chão. O problema é que quanto maior o impacto da queda, maior é o risco de a pessoa se machucar gravemente. Então fica óbvio que quedas da própria altura ao chão podem causar sérios problemas às pessoas idosas, como fraturas e lesões graves.

A fratura de fêmur é comum de acontecer numa queda da própria altura numa pessoa idosa. Geralmente é necessário que o idoso seja internado e passe por cirurgia para correção da fratura, ficando restrito ao leito. O tempo de internação pode ser longo, o idoso poderá ter dificuldades para usar equipamento de apoio para eliminações fisiológicas e acabar usando fraldas. Quando sair do hospital, poderá estar bastante debilitado. Embora alguns idosos se recuperem completamente com o programa de reabilitação, alguns destes idosos sofrem um declínio importante em sua independência e autonomia e não respondem tão bem assim à reabilitação, passando a depender de muito mais ajuda do que antes da queda.

Mesmo que a pessoa que caiu não sofra uma fratura ou trauma craniano, ela pode machucar-se durante a queda. É comum histórias de pessoas idosas que caem e machucam os joelhos, por exemplo, ou os punhos e dedos das mãos na tentativa reflexa de proteger a cabeça na hora da queda. Alguns destes idosos permanecem com dores que não desaparecem e podem até mancar ou sofrer modificações posturais devido a esta dor crônica, prejudicando a caminhada e aumentando o risco de sofrer outra queda. Além disso, a dor crônica pode piorar o humor da pessoa e ela pode começar a isolar-se socialmente, automedicar-se ou ficar buscando tratamentos incessantemente para alívio da dor, peregrinando em consultórios de várias especialidades.

Quando observamos que uma pessoa idosa está apresentando dificuldade ao sentar-se e levantar-se de cadeiras, sofás ou camas, bem como dificuldade de se movimentar no leito à noite (deixou de rolar e mudar de posição), é muito importante procurar um fisioterapeuta. Isto é um sinal de alerta para insuficiência de força muscular e precisa ser tratado urgentemente, antes que esta pessoa sofra a queda.

A queixa de tontura e desequilíbrio corporal também é muito comum em pessoas idosas e não pode ser ignorada. Se o idoso está reclamando sobre isto, ajude-o a investigar as causas e procurar tratamento. Como já escrevi em um outro texto da coluna, tontura é uma causa importante de imobilidade e quedas em pessoas idosas.

As residências das pessoas idosas podem constituir, também, uma ameaça a sua saúde. Casas com muitos móveis no caminho, objetos guardados em locais que não ficam à mão do idoso e falta de barras de apoio instaladas em áreas molhadas da casa, sobretudo no banheiro, são também causas de quedas em idosos. Eu também já escrevi um texto sobre casa segura para idosos aqui na coluna.

A saúde ocular e auditiva também pode comprometer a percepção sensorial e dificultar a locomoção da pessoa idosa, fazendo com que tropece mais facilmente em obstáculos não vistos, desenvolvam zumbido auditivo ou isolamento social. O isolamento social é uma causa importante de imobilidade em idosos. Quem só fica em casa e não tem uma rotina de ocupações pré-definida fica ocioso e tende a render-se à televisão, ficando sentado a maior parte do dia. Muitas vezes até cochilando, o que vai piorar o sono à noite e provocará uma espécie de “ressaca” no dia seguinte. Muitos idosos caem no dia seguinte a uma noite mal dormida, por exemplo.

São muitos os fatores que interferem no risco de uma pessoa idosa cair, desde a própria condição de  saúde, as doenças que a pessoa possui, até todas as condições citadas acima e outras. Portanto, quem acompanha e convive com pessoas idosas deve estar atento a todo tipo de risco que possa levar a uma queda.

Vale lembrar que não são só idosos mais idosos que caem. Idosos jovens e independentes também podem cair devido a estarem sendo mais expostos aos riscos por andarem na rua sozinhos, por exemplo. Portanto, todas as pessoas idosas precisam ficar atentas a visão, audição, saúde geral e capacidade física. Fazer exercícios regularmente diminui o risco de sofrer uma queda. Musculação é um exercício ótimo para pessoas idosas. Preservar os músculos faz com que a pessoa tenha um envelhecimento mais ativo e permaneça independente por mais tempo.

Vários outros exercícios podem beneficiar as pessoas idosas: circuitos de treino de equilíbrio corporal, treinamento funcional, caminhadas na rua, tai chi chuan, yoga e tantos outros. Porém eu sempre penso na musculação como a base de todos os outros. Profissionais de educação física estão cada vez mais se especializando em atender o público idoso e conseguir programar treinos que não sobrecarreguem demais as articulações e piorem problemas reumáticos pré-existentes. Já os idosos mais idosos e com mais comorbidades poderão precisar de um treino intercalado com métodos de alívio de dores crônicas e, nestes casos, o fisioterapeuta consegue ajudar mais o paciente a manter um nível adequado de atividade e
prevenir as quedas, sendo o profissional que deve ser procurado.

Sugiro que todas as pessoas compreendam bem a questão das quedas em idosos e o quanto elas podem desencadear uma cascata de agravos de saúde e piorar muito a qualidade de vida das pessoas idosas. A informação, neste caso, é fundamental para que os idosos e suas famílias busquem auxílio profissional ao menor sinal de risco de queda.

Cair de maduro é só para frutas é uma frase recorrente que encabeça projetos de prevenção de quedas em pessoas idosas criados por fundações de pesquisa, hospitais, prefeituras e outros órgãos preocupados com a estatística de prevenção de quedas em idosos, a sobrecarga ao sistema de saúde pública que estas quedas causam e o decréscimo na qualidade de vida no envelhecimento da população no Brasil. É uma frase que, mesmo com variações, passa exatamente a mensagem que deve passar. Envelhecer e cair NÃO são sinônimos e temos de trabalhar, enquanto profissionais e sociedade, pelo envelhecimento saudável dos nossos idosos.


Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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