Como saber se chegou a hora de contratar uma cuidadora de idosos? E como lidar com ela?

Brasília, sábado, 6 agosto, 2022

Por: Juliana Gai
Atualizado em: 6 agosto, 2022

Olá pessoal, estou de volta depois de um recesso tumultuado em julho: férias escolares, visitas, passeios, viagem…

No mês de julho, todas as famílias ficam mais juntas, assim como no Natal. E é interessante como, justo neste mês, a demanda por atendimentos em gerontologia sempre aumenta, refletindo na agenda cheia sempre no mês de agosto. A impressão que eu tenho, analisando meus 22 anos de trabalho na área, é que o contato dos filhos com os “avós de seus filhos” desperta neles uma observação mais apurada da saúde e da qualidade de vida das pessoas idosas da família.

As pessoas me contam coisas como: “eu fiquei uma semana na casa dos meus pais com as crianças e comecei a notar que eles não dormem bem à noite e cochilam muito durante o dia.” ou “fui visitar minha tia e passar um tempo com ela porque estava de férias com as crianças e ela está se queixando de tontura e disse que caiu no banheiro duas vezes desde janeiro”. Ou, ainda: “minha avó foi morar com os meus pais e eu vi que eles estão brigando muito porque a vovó esquece tudo e acorda eles à noite várias vezes fazendo barulho na cozinha.” Todas estas pequenas histórias vem com as frases a seguir: “o que eu faço?” ou “sei que precisam de cuidado e não sei por onde começar”.

Pois é… Começar é um problema. Porque começar “com o pé direito” como diz o famoso ditado preconceituoso com pessoas canhotas como eu, é difícil. Sobretudo se a falta de informação adequada sobre o envelhecimento humano impede que as pessoas tomem melhores decisões e procurem os profissionais certos.

Já falei aqui sobre vários temas e quem acompanha a coluna deve ter se identificado com pelo menos um deles. Todas as temáticas atravessam uma única: o chamado “problema de envelhecer”. Este tal “problema”, na verdade, não é um problema, é um fato inerente à vida. Porém saber disso conscientemente não nos faz lidar melhor com o cuidado de pessoas idosas e com a necessidade do auto-cuidado para envelhecer melhor, com saúde e qualidade de vida. Humanamente, deixamos tudo para “a última hora”.

Há situações muito claras que colocam em cheque a segurança das pessoas idosas e sua capacidade de praticar auto-cuidado sem ajuda. Vou citar algumas:

1. Falta de rotina organizada na casa pode denotar uma dificuldade na gerência das tarefas do dia a dia. Pessoas idosas com problemas de memória, atenção ou outros problemas mentais costumam ter muita dificuldade com isto.
2. Sonolência diurna pode significar noites mal dormidas e colocar a pessoa idosa em situações de grande vulnerabilidade como dirigir perigosamente ou sofrer uma queda.
3. Perda de peso corporal pode indicar problemas de saúde ou questões alimentares que ninguém parou ainda para perceber. O idoso pode estar comendo de maneira insuficiente devido a inabilidade em preparar sozinho a própria refeição, dentre outras causas.
4. Ganho de peso corporal também pode indicar problemas. Tanto a questão de compulsão alimentar devido à falta de ocupação durante o dia ou à solidão, quanto também os lanches excessivamente calóricos e fáceis, como sanduíches, podem estar presentes no almoço e jantar.
5. Queixa de intestino preso pode estar relacionada a doenças gastrointestinais, mas também tem uma relação estreita com a forma como este idoso se alimenta. E talvez a ingesta de água esteja bem insuficiente e ninguém notou.
6. Engasgos frequentes ao ingerir líquidos ou alimentos pastosos pode denotar dificuldade de deglutição dos alimentos. É muito desagradável engasgar, além do desconforto físico soma-se o desconforto social e a pessoa idosa pode passar a evitar água ou mesmo deixar de se alimentar em público. Geralmente quem percebe isto são os cuidadores.
7. Comida caindo da boca durante a mastigação pode ser sinal de problemas dentários e também leva a isolamento social.
8. Dificuldade para levantar de cadeiras e sofás sem ajuda pode indicar fraqueza muscular das pernas. E eu sempre digo: “quem cai no sofá, cairá no chão já já, fique atento!”
9. Idosos que começam a correr em direção a banheiros ou que sempre perguntam se tem banheiro perto de onde irão ficar em uma festa, por exemplo, podem estar com incontinência urinária e, se forem sozinhos ao banheiro, podem perder o equilíbrio e cair.
10. Idosos que perderam a capacidade de realizar tarefas duplas naturalmente, como andar conversando ao mesmo tempo, podem estar correndo riscos ao estarem na rua sozinhos, devido a não conseguir mais reagir a tantos estímulos ao mesmo tempo. Precisam de companhia e de reabilitação.

Bom, são muitos os sinais do início da dependência, estes são só alguns deles. Mas eu quero é falar da chegada dos cuidadores formais à vida dos idosos e das suas famílias de uma forma mais abrangente.

As cuidadoras de idosos são mais comumente chamadas no feminino porque ainda são a maioria, porém cada vez mais eu treino homens para assumir estes empregos, o que demonstra uma mudança na oferta de serviços, pois, em geral, pessoas idosas mais jovens do sexo masculino podem gostar da companhia de outros homens no seu dia a dia, pela afinidade de assuntos e interesses. Eu tenho um paciente querido que se diverte muito assistindo futebol com seus cuidadores. Além disso, costumam ir a um barzinho na asa sul tomar uma cervejinha juntos na sexta-feira. Claro que ninguém ali pode beber muito, mas uma só
cervejinha deixa os dois felizes.

A chegada de cuidadores contratados às famílias é sempre motivo de confusão. Os cuidadores são a expressão clara da mudança no momento de vida de todos da família. É como ver “na cara” que agora “a história será outra”. A dependência chegou. E todos terão de lidar com isso.

Portanto, quando conseguimos cuidadores treinados e sensíveis às dificuldades de aceitação das próprias pessoas idosas e das suas famílias, a instabilidade emocional de todos passa com o tempo e é possível instaurar uma rotina de cuidado organizada, com diversão, passeios, e vida feliz mesmo com dependência de ajuda 24 horas por dia.

A profissão de cuidador de idosos é uma profissão que só cresce, portanto é importante que estes profissionais sejam treinados para atravessar junto com idosos e famílias o período de adaptação, com resiliência e com tolerância para com as imperfeições humanas de todos nós. Senão os cuidadores começam a ser trocados a todo momento e não se consegue chegar a uma rotina estável, o que vai deixando todos adoecidos.

As queixas das famílias são inúmeras em relação a cuidadores: “não sabe ser invisível”, “se mete em tudo”, “usa roupas inadequadas para o trabalho”, “usa perfume demais”, “é desatenta e só fica no celular”, “faz fofoca da família com a empregada doméstica da casa”, “dá comida na boca do idoso porque não tem paciência de esperar ele comer sozinho”, “não gosta quando tem que sair para rua com minha mãe”, dentre tantas outras.

Precisamos entender que esta profissão é nova no Brasil. Então é normal ter cuidadoras inexperientes na compreensão do seu papel, sem postura profissional e sem treinamento para lidar com ânimos de outras pessoas ao redor. Também é normal que nos cursos de cuidadores esqueçam de ensinar sobre essas questões, formando profissionais que chegam nas casas das pessoas impondo suas vontades com uma postura de “quem sabe tudo”, mas usando unhas compridas pintadas de vermelho.

São muitas as questões que as pessoas idosas e suas famílias enfrentam. Mas eu já conheci cuidadores tão maravilhosos a quem ensinei tantas coisas e com quem eu também aprendi mais sobre amar ao próximo como a si mesmo. Valorizo demais a profissão e torço para que seja cada vez mais valorizada. Porém é preciso profissionalização séria desta carreira, abrindo os olhos dos cuidadores para um mercado de trabalho com grandes possibilidades de sucesso.

Vocês conseguem entender o quanto toda a sociedade brasileira precisa aprender sobre envelhecimento e cuidado de pessoas idosas? É muita coisa. É necessário que todos se unam em relações respeitosas e que aceitem com humildade o fato de que todos estão aprendendo gerontologia, esta ciência com nome esquisito, que vê o processo de envelhecer de maneira holística, contemplando as questões físicas, psicológicas e sociais do ciclo de vida humano.

Que tal pensar sobre isto?

Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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