ENVELHECIMENTO: ACEITA QUE DÓI MENOS!

Brasília, sábado, 26 fevereiro, 2022

Por: Juliana Gai
Atualizado em: 3 maio, 2022

Olá pessoal, meu nome é Juliana Gai, sou gerontóloga e fisioterapeuta, e estou assumindo uma coluna semanal aqui no Portal Lago Sul. Falarei de temas relacionados ao envelhecimento humano. Espero que seja interessante e que possa contribuir com a compreensão do processo de envelhecer com saúde e qualidade de vida.

A idéia desta coluna é interagir com o público. Então, envie para o meu e-mail ou pelo direct do meu Instagram, suas dúvidas e interesses na área e vou discorrer sobre o assunto por aqui, assim como contarei um pouco dos meus 21 anos trabalhando com pessoas idosas e suas famílias.

Vamos começar falando sobre a Gerontologia?
A Gerontologia é uma ciência relativamente nova, nascida em 1903 pelas idéias de Metchnikoff, um médico seguidor do famoso neurologista Charcot, como a ciência que estuda o processo de envelhecimento sob as dimensões biológica, psicológica e social. Charcot é conhecido como o pai da neurologia e da psiquiatria modernas e foi professor de Freud, Babinski, Tourette, Parkinson e muitos outros neurologistas e psiquiatras famosos. Na década de 50, a ciência tomou corpo a medida que pesquisadores que antes eram dedicados a investigar as fases iniciais do curso de vida, com a sua própria maturidade, passaram a se interessar pela velhice. A partir de então, a gerontologia foi se desenvolvendo junto com todas as ciências que ganharam força após a segunda guerra mundial, cuja década seguinte constituiu um marco na medicina e na descoberta de vários tratamentos para doenças que deixaram de matar a população e propiciaram o surgimento de uma vida cada vez mais longa para os seres humanos.

Bom, depois desta introdução com intuito informativo, vou inaugurar a coluna falando de “surpresas”. Depois de dois anos seguidos de muitos acontecimentos que impactaram a minha vida e a de todos os seres humanos do mundo, acho legal começar falando disso. Ah, como a gente briga com as surpresas! Na verdade, ninguém gosta de surpresas. Imprevistos são péssimos, sabemos bem disso. Ninguém contava com a pandemia de COVID19, por exemplo, e a gente brigou pra caramba com ela, até que aceitamos, aprendemos a viver uma nova vida, cercada de máscaras, cuidados redobrados com higiene e preocupações presentes durante todo o tempo. Assim é a vida! Não é? Cheia de surpresas, grande parte nada agradável. Porém, a gente aprende a se virar com elas, se reinventa e expande nossa capacidade de encontrar soluções para os problemas, mesmo que a contragosto.

Ao longo das nossas vidas, várias “surpresas” acontecem. Coisas que nunca imaginamos ou que até pensamos em um momento ou outro, porém estávamos tão ocupados com outros acontecimentos, que deixamos para pensar depois, não demos muita atenção. Isto, no futuro, pode nos causar certo arrependimento. Por que eu não pensei nisto antes? Por que eu não me preparei? Por que eu achei que não iria acontecer comigo? Por que eu subestimei o tanto que isto me afetaria? São muitos os “porquês”.

A questão é que a vida não é algo que podemos controlar. Há uma ilusão de controle porque em alguns aspectos, nossas decisões conseguem proporcionar algum. Por exemplo: ao decidir ter um bebê, sabemos em parte o que isto significará, portanto durante a gestação, há todo um preparo para o nascimento do bebê. Porém não há como controlar 100% do acontecimento. O nascimento pode ser por um parto que complica ou não, o bebê pode ser totalmente saudável ou não, a amamentação pode ser só prazer ou não, pode-se precisar de mais ajuda do que o que havia se imaginado precisar. O caminho entre cada surpresa e a adaptação pode ser árduo. Quanto mais preparado você está, melhor será. Quando mais você nadar no escuro, pior será. Mas o aprendizado se dá por meio de desequilíbrios que surgem justamente do inesperado, das surpresas.

E lá vamos nós… seguindo vida a fora lidando com surpresas e com novos aprendizados. O tempo em que ardemos em sofrimento pode ser menor conforme for a gravidade da surpresa, conforme for o preparo para o esperado, conforme cada pessoa reage aos desafios e conforme seu equilíbrio mental e capacidade de entender que tudo na vida passa, até os maus momentos. Há uma tendência natural do Universo para a estabilização do caos, os físicos explicam bem isto. Às vezes só da gente se conformar, as coisas vão se acalmando. E vão-se embora os momentos de aflição mesmo sem a gente fazer nada.
No processo de envelhecer não é lá muito diferente. Mas um certo preparo para a chegada do último ciclo da vida pode ajudar muito a se conformar com as mudanças mais rapidamente.

As gerações mais antigas não precisavam se preparar muito, afinal seus pais morreriam antes da fragilidade chegar, a maioria ficaria pouco tempo dependendo de ajuda e logo deixaria a terra como a conhecemos, indo para algum lugar na morte explicado por alguma religião. Porém o homem evoluiu, a sociedade evoluiu, a medicina sofreu grandes mudanças tecnológicas e novos questionamentos também estão surgindo. Há algum tempo nos questionamos sobre viver muito versus viver com qualidade de vida e sobre quem deve ser o responsável pelo cuidado das pessoas frágeis e dependentes, tendo em vista que no modelo atual de sociedade, as mulheres trabalham (e muito) e tem suas vidas profissionais estendidas para além dos 40, 50 ou 60 anos. É um fato histórico e social! E temos de entender.

Poucas desejam se aposentar aos 50 anos e ficar em casa cuidando de netinhos ou de familiares idosos. Até porque, em geral, hoje em dia, pessoas de 50 anos podem nem ter netos ainda. Então, estamos atravessando um período de grandes surpresas na temática da gerontologia, tais como mulheres ainda trabalhando, com crianças e adolescentes para cuidar e já com pais idosos ficando dependentes, de uma geração que não teve acesso a conhecimento sobre planejar um envelhecimento saudável.
Envelhecer é a arte de desprender-se! Deixar pra lá quem você foi e valorizar quem você se tornou, porém não é tão fácil assim na prática. O ser humano é muito briguento!
Brigamos com tudo. Não aceitamos muita coisa que nos acontece, e às vezes, deixamos a cabeça quente nos dominar por completo. Nos apegamos demais a tudo e a todos. Dalai Lama vive por aí pelo mundo explicando para todos o quanto é importante praticar desapego, afinal, segundo ele, “o que vai e não volta nunca foi seu”, o que eu interpreto como “nada é de fato nosso”, são só coisas que usamos, incluindo o nosso corpo que, obviamente, temos a obrigação de cuidar bem, porém um dia ele também irá embora.

O envelhecimento é um processo muito diverso. O que acontece no fim de nossas vidas está intimamente atrelado a tudo o que aconteceu desde que nascemos. Se recebemos amor e cuidado, aprendemos a aceita-los melhor. Se não recebemos o suficiente, podemos ter sérias dificuldades em aceitar tanto amor quanto cuidado, porque acabamos por atrelar isso a controle e não queremos ser controlados por ninguém. Há muitos idosos que associam cuidado a controle, e, sendo assim, dão o maior trabalho para quem está cuidando. Por isso não podemos deixar de nos importar com o contexto em que o ser humano nasce, porque será o contexto em que morrerá. Isto é um fato. Não sou eu que estou dizendo. A escola da vida é que nos mostra o quanto isso é real. Amar e cuidar são sinônimos de entrega e quem um dia se entregou e recebeu na infância, terá passado isto a geração seguinte. A vida é um constante plantar e colher. Se plantar amor, respeito, admiração e autoestima, colherá isto da nova geração, que, segundo o ciclo da vida, cuidará de você no envelhecimento.

A questão é que cuidar de uma geração que ainda não compreendia muito bem estas coisas e que teve uma vida mais dura, mais exigente de controle, pode não ser nada fácil. Alguns idosos tem muita dificuldade de deixar o palco da vida para viver nos bastidores. Lá, nos bastidores, é preciso se entregar e aceitar. E alguns, literalmente, não conseguem.

Envelhecer bem é uma dádiva. Mas nada na vida acontece por milagre. Não estou dizendo que milagres não são possíveis. Eles acontecem. Mas, como profissional, não posso contar com milagres, tenho de contar com meu conhecimento científico para ajudar as pessoas que me procuram a aceitar o “milagre da vida” como um todo, desde as tenras fases da sua existência até o derradeiro final. E isso tudo passa por ensinar às pessoas, justamente, que tudo passa. Como diz a música: “tudo passa, tudo passará”. Viva plenamente o momento, pois ele passará. Mas em cada momento da vida é possível colher frutos de sabedoria e aprendizado, sobretudo se você manejar a parte da sua vida sobre a qual você tem algum controle: estudar, se informar, entender a importância de aceitar a mudança e relaxar quando necessário.

Não brigue com seu envelhecimento, não brigue com o envelhecimento dos seus pais e com as demandas que isto gera na sua vida. Tente pensar que é só mais um momento de desafio e que você, com a cuca fria, poderá gerir melhor o que é possível controlar. Não tente pensar que controlará tudo, pois em nenhum momento das nossas vidas conseguimos essa façanha. Aceite, se entregue, busque ajuda e siga.

É isto que atualmente todos nós estamos fazendo depois deste desafio imenso que tem sido a pandemia de covid19. Somos fortes, a gente aguenta! Especialmente, se aceitarmos o que não podemos mudar!

Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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