Falando sobre visitar pessoas que estão no fim da vida

Brasília, sábado, 7 maio, 2022

Por: Juliana Gai
Atualizado em: 7 maio, 2022

Olá. Eu aqui de volta, feliz de poder continuar compartilhando informações e dicas que podem ajudar a todos a lidar com problemas significativos no processo de envelhecer ou de cuidar de pessoas idosas. Hoje vou falar sobre visitar pessoas com doenças terminais e que estão próximas do fim da sua jornada da vida.

Em 1950, Erik Erikson, que foi um grande psicanalista, publicou seu ensaio sobre o desenvolvimento psicossocial humano: “as oito idades do homem”. Embora Erikson fosse seguidor de Freud, em sua teoria ele deu mais valor à cultura e à sociedade do que Freud o fez, as posicionando como muito relevantes para as escolhas das pessoas ao viverem as crises de desenvolvimento durante a vida e lidarem com o fim da vida.

Prometo me aprofundar mais no ciclo de vida em outro texto aqui da coluna. Mas hoje toquei neste assunto porque o último subciclo, ou seja, o envelhecimento, nos aproxima de uma temática que a cultura e a sociedade habitualmente sufocam, impedindo que as pessoas tenham conversas sinceras sobre o que sentem em relação à morte.

Mas a morte chegará para todos nós. Afinal, além dos impostos, ela é a única certeza que temos na vida. Não temos controle total sobre mais nada. E o fato de não falarmos sobre isto torna muito difícil prestar acolhimento e dar auxílio a quem deseja e precisa conversar sobre chegar ao fim do caminho.

Representada comumente como um esqueleto humano usando capa preta e segurando uma foice pronta a ceifar a vida, a figura tornou-se tão assustadora que, por mecanismo de defesa psíquica, às vezes vira até cômica. E talvez a gente precise mesmo desta “veia cômica” da morte para conseguir entender o quanto ela é inerente à vida.

Em duas décadas trabalhando com pessoas idosas, já acompanhei muitas até o último dia, e com elas já aprendi grandes lições de vida. A que considero a mais importante é a de que as nossas escolhas de vida determinam como será o fim da nossa vida. Se teremos opções de decidir sobre nós ou teremos desenvolvido laços de amor profundos com alguém a ponto de
delegar estas decisões. Outra grande lição é saber que quantidade de dias vividos ao longo do ciclo de vida completo não tem um valor nem aproximado do grande valor da qualidade destes dias vividos.

Então se você irá visitar alguém que, sabidamente, está em processo terminal de uma doença, comece por não o ver como um mártir, afinal, todos nós somos o que somos, tanto vivos quanto mortos. Os mortos não serão santos. Continuarão sendo pessoas, com qualidades e defeitos.

Quem está próximo do fim não será beneficiado com a sua pena e sim com acolhimento amoroso para organizar-se e informar sobre seus desejos, o que o deixará, sem dúvida, mais tranquilo.

Vou enumerar algumas orientações abaixo que poderão ajudar você:

1. Telefone antes para agendar a visita. Fale naturalmente. Após os cumprimentos, informe sobre o seu desejo de vê-lo. Se a pessoa disser que não poderá recebê-lo, respeite e não crie sentimento de rancor em relação a isto. Sempre digo que o maior sentido da empatia é o respeito ao momento do outro.

2. Ao chegar na casa da pessoa, ou no quarto de hospital, modere suas emoções. Não precisa chegar com cara triste, mas também não chegue com cara de festa fingindo que nada está acontecendo, pois não é verdade. E ser verdadeiro é sempre a melhor atitude! Tente se conectar com o estado de espírito da pessoa. Se notar que ela precisa de abraço, dê. Se ela se mantiver distante fisicamente, tudo bem.

3. Não fique minimizando a situação em uma conversa inútil com frases como “não se preocupe, você não irá morrer”, “você será curado” ou coisas do tipo começar a rezar. Se rezar for desejo da pessoa, ela irá pedir. Converse normalmente sobre o dia a dia. Mas ouça muito mais do que fale. Deixe a própria pessoa guiar a conversa e respeite suas crenças espirituais, mesmo que você tenha outras. A pessoa está lidando com um redemoinho de emoções e talvez ela queira simplesmente falar como se sente. Ou não. Às vezes somente ser presente sem nenhuma conversa já será uma gentileza.

4. Não leve seus problemas ou fofocas familiares para a visitação. Conte coisas triviais como um programa de TV legal que assistiu, um filme, sobre a formatura de alguém ou um neto que nasceu, um vizinho novo que se mudou, um livro… Não fique compartilhando planos de viagens porque a pessoa pode se sentir já excluída da sua vida ou dos planos de todos. Lembre-se que talvez ela esteja em um momento mais contemplativo e você não vai contribuir compartilhando um momento de agitação. Mas não é proibido rir, se alegre, e até se a pessoa se interessar por histórias engraçadas, não há problema em contá-las e se divertirem juntos.

5. Se perceber interesse da pessoa em visitar algum lugar ou rever alguém, você pode se oferecer para acompanhar a pessoa ou para contatar quem deseja ser visto e promover o encontro. Coloque-se à disposição. Talvez você possa fazer algo grandioso por alguém e nem sabe disso.

Para finalizar, vá visitar as pessoas que estão no fim da vida e que você ama. Esteja com elas. Não fuja. A maioria delas fica feliz em receber visitas ou despedir-se. Entretanto, observe bem o momento de ir embora. As pessoas dão sinais de cansaço ao parar de falar, cochilar ou agradecer pela visita, por exemplo.

Aproveite o momento para aprender sobre gratidão pela vida e por tudo de bom e ruim que vivemos, pois até as coisas ruins podem ser boas porque contribuem com nossa maturidade, mesmo que levemos anos para entender isto. Como diz a Bíblia Sagrada, um livro que, não importa a religião de cada um, ensina muita coisa a todos, na primeira carta aos
Tessalonicenses, capítulo 5, versículo 18: “Em tudo dai graças”.


Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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