O conceito que está na moda e o envelhecimento humano: Lifelong Learning

Brasília, sábado, 4 junho, 2022

Por: Juliana Gai
Atualizado em: 11 junho, 2022

Olá pessoal, cada vez que estou de volta aqui sinto-me privilegiada por poder compartilhar tudo o que aprendi em 22 anos acompanhando pessoas idosas e suas famílias.

Cada um que passou ou está passando por esta jornada também me ensina algo. Aliás, todo mundo nos ensina algo, mesmo que não seja algo bom. E isto vai de desenvolvimento pessoal até aprendizado profissional. E todo o conhecimento de uma vida deve ser valorizado, compartilhado e constantemente reciclado, atualizado.

É sobre isto que se fala quando descobrimos o quanto é importante continuar aprendendo sempre!
Vamos falar sobre o que é o “Lifelong Learning” então? Na tradução para o português, o termo significa justamente “Educação Continuada”.

Este conceito, obviamente, tem ganhado muito espaço no marketing, nas empresas e serviços e no espaço comercial em si. Porque descobriu-se que os clientes vão se modificando, com os aprendizados que vão adquirindo ao longo da vida, e então é necessário manter-se interessante no mercado, evitar virar obsoleto e desnecessário.

Na educação em saúde nós já seguíamos esta linha mesmo quando não se falava tanto no termo em si. Nós, profissionais de saúde, já sabíamos que nossos clientes mudavam e que novas necessidades surgiam, novos tratamentos apareciam e que a atualização constante nos tornava mais eficientes. Entretanto, adquiríamos conhecimentos sem entender tanto assim o que isto agregava em termos de desenvolvimento para a humanidade.

Quando o termo “Lifelong Learning” virou moda, passamos a compreender melhor o sentido social da educação continuada. É a educação para a vida que importa. É a flexibilidade adquirida pelo ser humano em aceitar que não sabe tudo e que precisa saber mais para viver melhor e melhorar a sociedade em que vive. Então a gente passou a valorizar mais o aprendizado não formal do que valorizávamos antes. Passamos a entender que o aprendizado prático, que ocorre ao longo de todo o nosso ciclo de vida humana, é fundamental para o desenvolvimento do planeta e de nós mesmos.

A Organização Lifelong Learning da Austrália coloca o conceito como “aprendizagem ao longo da vida, flexível, diversa e disponível, para além da escolaridade tradicional”. Refere-se a “pessoas e empresas que estão sempre dispostas a aprender algo novo, independente do método usado para isso.” Este conceito é incrível!

Já pensaram no quanto podemos aprender morando um ano de nossas vidas em outro país, por exemplo? Já pensaram no quanto podemos aprender estudando com uma parteira indígena lá no interior do país? Já pensaram que podemos aprender com nossas crianças? Aprender com os idosos que nos cercam? Já pensaram que o ensino formal é maravilhoso e necessário, mas que devemos e podemos valorizar a “práxis”? A escola da vida jamais foi tão valorizada!

Eu, particularmente, acho isto fantástico. Eu vivo isto há muitos anos. Eu aprendo todo santo dia com meus pacientes, com as suas experiências compartilhadas comigo. Eu admiro quem já passou pelo momento de vida que estou passando, sem deixar de admirar a minha filha de 9 anos de idade, que também me ensina, o tempo inteiro, a ser uma pessoa melhor como mãe e para o mundo.

O conceito realmente é muito sedutor. A questão é entender como colocá-lo em prática e a sua importância para o envelhecimento saudável. Gostaria de falar mais sobre isto, afinal.
O envelhecimento humano é extremamente diverso, assim como somos seres diversos e cada um vê e vivencia o mundo do seu jeito próprio. Anais Nin já dizia claramente isso ao falar que “não vemos o mundo como ele é, vemos o mundo como nós somos”. Eu adoro esta frase.

Eu sempre trabalhei com reabilitação, então o neurodivergente faz parte da minha vida há muito tempo. Já tive pacientes que tiveram AVC (derrame) e passaram a ver o mundo, literalmente, com outras cores. Já tive pacientes em cuidados paliativos, no fim da vida, que ressignificaram uma existência toda e compartilharam comigo. Já tive pacientes que sofreram acidentes e perderam partes do corpo e se reinventaram. Já tive idosas inconformadas por estarem vivas enquanto seus filhos já haviam falecido e, mesmo assim, estavam vivendo suas vidas.

De repente, um dia, eu, lendo sobre Longlife Learning, ressignifiquei também a minha vida e o meu aprendizado. Vi que a minha educação formal fez muita diferença sim porque, por meio da minha especialização em Gerontologia, eu estive em contato com todos estes públicos. Mas percebi, sobretudo, o quanto a prática é o que nos move, nos amadurece, nos empurra para o desenvolvimento pessoal. E o conceito faz justamente a gente pensar sobre isto.

O ser humano aprende a vida inteira. Até último dia de sua vida. E, atualmente, nós vivemos muito tempo. Se a gente deixar de lado toda esta capacidade de aprender e de vivenciar novas experiências, nós estaremos nos auto-negligenciando gravemente. Praticamente nos entregando ao esquecimento, nos tornando desinteressantes para as pessoas ao nosso redor e para o progresso do mundo.

Cada um de nós faz parte do movimento de evolução das sociedades humanas. Portanto, não devemos adquirir postura rígida de quem já sabe tudo quando vamos envelhecendo, porque não é verdade. Não sabemos tudo. Nunca saberemos tudo. O mundo muda a cada segundo.

Então, que tal a gente adotar este conceito e buscar o aprendizado constante? Com certeza, isto nos tornará pessoas mais empáticas e resilientes, o que se converterá no nosso bem-estar diante dos desafios do envelhecimento. Sendo assim, gostaria de deixar como mensagem a compreensão de que nós somos agentes do nosso próprio envelhecimento. Nós escolhemos como vamos vivê-lo. É uma escolha! E nunca é tarde para aprender a fazer boas escolhas na vida.

As pessoas idosas que eu conheço que tem o maior índice de alegria de viver e gratidão pela vida são aquelas que buscam aprender coisas novas o tempo todo. Se renovam constantemente e não acreditam na falsa ideia de que idosos não precisam e não aprendem mais. São as pessoas que não acreditam no estereótipo do “velhinho em frente à TV esperando o fim”. São os idosos que estão por aí desbravando o mundo em viagens, em cursos de idiomas, numa faculdade nova, na academia de dança, estudando história da arte, abrindo novos negócios, frequentando palestras, fazendo trabalho voluntário. Aqueles que estão aceitando ajuda dos netos para aprender a mexer no celular e pedindo ajuda para quem entende de “google meet” para se matricular num curso on line. São aqueles que estão inaugurando Instagram, fofocando com as amigas no whatsapp e no facebook. São os que deixaram de ver novela às três da tarde para ir ao cinema, ao teatro, à universidade… São os que não se ressentem de gente jovem por perto! São os que nunca deixam de fazer planos e sempre tem objetivos a cumprir. Estas pessoas devem ser os nossos espelhos.

Pensem nisto!


Referências:
http://www.associationforlifelonglearning.org/
https://ala.asn.au/lifelong-learning-communities/
https://ncver.edu.au/__data/assets/file/0028/7498/lifelongunesco_oct04.pdf


Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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