O cuidado dos pais idosos

Brasília, sábado, 12 março, 2022

Por: Juliana Gai
Atualizado em: 3 maio, 2022

Olá! Hoje a proposta é a gente falar um pouco sobre a responsabilidade de cuidar dos pais idosos.

Cuidar dos pais idosos é uma nova demanda nas nossas vidas que, mais cedo ou mais tarde, vai chegar! Cuidar pode trazer sobrecarga emocional e física e pode adoecer o familiar cuidador, que, em geral, é a filha. Embora tenhamos filhos, genros, noras, sobrinhos, netos e outros
familiares que cuidam de seus idosos.

São muitos os que cuidam dos pais idosos. E todos tem problemas com o processo de cuidar simplesmente porque o cuidado é algo considerado de alta complexidade pelos profissionais que estudaram gerontologia. Sabemos que quem é responsável pelo cuidado de alguém acaba abrindo mão da sua própria vida, dos seus planos e sonhos, e, muitas vezes, é engolido totalmente pelo processo de cuidar. Se esta pessoa, que é cuidadora, não aprender a continuar vivendo apesar do cuidado, é certo que ela adoecerá e já vi, muitas vezes, o cuidador falecer primeiro do que a pessoa que é cuidada.

Sabemos sobre psicossomática há muito tempo e então já é cristalizada a idéia de que muitas doenças são geradas devido a questões mentais não acolhidas. Imaginem uma filha que tem por volta de 50 anos de idade, está enfrentando as mudanças hormonais típicas do início do climatério, é casada e está lidando com as mudanças corporais e psicológicas que seu marido também enfrenta, tem um casal de filhos: uma mulher de 27 anos que acabou de ter um bebê e um homem de 23 anos, que está saindo da faculdade e em conflito com a inserção no mercado de trabalho. Além disso, esta mulher também trabalha ainda, digamos que seja uma professora da rede privada de ensino. Em meio a tudo isto, ela precisa fazer atividade física pelo menos três vezes por semana, ter sexo com seu marido, e está preocupada com as rugas em seu rosto, seu cabelo branco e a visão que a sociedade tem dela. E, neste exato Momento da sua vida, sua mãe, de 75 anos, cai e sofre uma fratura de fêmur.

Vocês estão lendo e de fato imaginando a sobrecarga nas costas desta mulher? Continuando… Imaginem que o pai dela tem 79 anos, vai a academia e faz atividade física, ainda dirige. De repente a sua esposa, que era sedentária, caiu no banheiro porque no box não havia barras de
apoio e quebrou o fêmur. Agora imaginem que a senhora de 75 anos, que fez uma cirurgia no quadril para fixar a fratura e estava internada há 21 dias, vai voltar para casa debilitada, com dificuldade de locomoção, usando cadeira de rodas ou andador, e precisando passar por um
processo de reabilitação física. Imaginem como está a cabeça deste senhor idoso de 79 anos e a cabeça da filha dele, de 50 anos. Sim, eles estão em pânico.

O pânico, por culpa, é sempre disfarçado de uma dedicação imensa ao doente. As pessoas sentem-se mal pela ocorrência da queda. Elas pensam que se tivessem colocado as barras de apoio no box do banheiro, isto não teria ocorrido. Se tivessem insistido para a senhora fazer atividade física, ela não teria caído. Elas pensam sobre o sofrimento desta pobre senhora que é amada por sua família. Elas estão vendo o quanto a qualidade de vida dela caiu. Elas estão vendo agora uma idosa dependente precisando de cuidado em tempo integral, que não consegue mais tomar banho sozinha, não consegue nem andar sozinha, que está vulnerável psicologicamente e com medo de ficar dependente para sempre.

Pensem no que essa filha passará a fazer da vida dela mesma a partir deste momento. Ela terá de conversar com os médicos, contratar um fisioterapeuta, contratar cuidadores de idosos para prover cuidado para sua mãe, senão ela mesma terá de cuidar e não conseguirá ir trabalhar. O tempo que ela tinha para o marido e o netinho recém-nascido acabou. É como aquela figurinha de watsapp em que alguém joga um monte retangular de feno compactado na cabeça de outra pessoa pelas costas, ou como aquela outra figurinha em que uma pessoa joga uma mulher direto na boca de um tubarão. Ela ama sua mãe, mas a doença da mãe virou a vida dela de cabeça para baixo.

Ela precisará recalcular a rota do seu GPS interno de modo que consiga gerir mais esta demanda em sua vida. Obviamente será muito importante ela levar um papo com um profissional gerontólogo e pedir ajuda. Porém ainda poucas pessoas na sociedade conhecem a nossa profissão. Às vezes ficam sem saber para onde correr.

Para vocês terem idéia, lidar com outras pessoas é muito complexo. Todos temos família e já sabemos bem disso, mas as cuidadoras de idosos serão “pessoas estranhas” que terão caído de para-quedas sem aviso prévio na sua vida! Quando elas não são bem treinadas ou experientes, haverá um tempo maior de adaptação ao processo de cuidar, e às vezes elas precisarão de um profissional que vá na casa do idoso e as treine para que consigam executar um plano de cuidado adequado e diminuam a sobrecarga nas costas da filha cuidadora.

Talvez, em algum momento, haverá de ter uma reunião da família para conversar sobre o cuidado desta idosa, amada por todos e, no momento, incapacitada e dependente. Se o esposo da filha não for informado de tudo, o casamento poderá ter problemas. Se a filha dela, que teve bebê recentemente, não compreender que a vida da sua mãe de 50 anos, avó recente, virou de cabeça para baixo, ela pode se sentir abandonada num momento em que ela mesma está muito vulnerável. Se o marido da recente mãe, o recente pai, não entender que precisará ajudar mais a esposa agora, ela ficará mais abandonada ainda. Se o filho da senhora de 50 anos não for informado que, a partir deste momento, ele terá de ajudar os avós também, ele, como jovem, não entenderá a importância da sua participação.

Dá pra sentir o quanto é complexo e o quanto o cuidado de alguém dependente interfere na vida e na saúde de toda a família?

Quando um membro da família fica dependente, todas as pessoas devem ser informadas e envolvidas no processo de cuidar, direta ou indiretamente. A chegada do momento de cuidar dos pais não é simples para os filhos e nem para as suas famílias, muitas se desestruturam no momento de assumir o cuidado.

Bom, posta toda esta situação acima descrita, vamos falar que, mesmo que seu idoso não sofra um acidente por queda, a dependência pode ir acontecendo aos poucos e as famílias podem não perceber que estão se desestruturando também, gradativamente, envolvidas no processo de cuidar dos seus idosos.

A começar pela própria questão de o idoso aceitar ser cuidado. Em geral, os filhos vão percebendo a chegada deste momento primeiro que a própria pessoa idosa e é preciso saber conversar e negociar com o idoso a passagem da “chave da cidade” para um novo administrador.
Essa percepção se dá porque, com o tempo, as pessoas idosas vão começando a ter mais dificuldades para sair de casa e resolver as questões do dia a dia. Chega o momento de deixar de dirigir, por exemplo, o que torna as compras do supermercado mais complexas de fazer.
Aparecem as dificuldades visuais e auditivas, que podem começar a interferir na capacidade de ser independente para as atividades funcionais do dia a dia, como ir a consultas médicas, administrar as contas, manter a casa abastecida e viajar sozinho. Ou seja, os filhos vão percebendo que os idosos começam a precisar de ajuda aos poucos. E também aos poucos vão assumindo uma ou outra função até que chega o momento de assumir de um todo o cuidado. Se a pessoa idosa tiver um bom planejamento do seu processo de envelhecer e prevenir os agravos de saúde, pode envelhecer melhor. Mas algumas doenças podem acelerar o processo de dependência, como a Doença de Alzheimer, outras doenças neurológicas ou mesmo uma queda com consequente fratura, como no caso descrito acima. Portanto, é fundamental que a pessoa idosa tenha um bom acompanhamento médico e de reabilitação durante o processo de envelhecer.

Já estou com outro texto a caminho, falando mais sobre este tema, que “dá muito pano para a manga”, mas gostaria de, agora, deixar claro o quanto é importante a gente compreender o sofrimento dos filhos (e de outros familiares) que cuidam de pessoas idosas, compreender o quanto isto pode desestruturar uma pessoa e a sua família.

É muito importante que quem cuida aprenda a máxima da máscara de oxigênio dita em aviões e que eu não me canso de repetir: “em caso de despressurização da cabine, coloque a máscara de oxigênio primeiro em você antes de auxiliar a quem precisa de ajuda”.

Por que esta frase é repetida sempre que a gente embarca em um avião? Incansavelmente repetida… É porque se, ao ajudarmos a outra pessoa, a gente desmaiar por falta de oxigênio, duas pessoas irão morrer e não uma. É um sério risco! Porque se quem está bem desmaiar, quem vai ajudar a pessoa que não consegue botar a máscara de oxigênio sozinha?

Tenho uma amiga que é comissária de bordo de viagens internacionais e ela já me contou que em vezes em que passaram aperto no avião, ela via mães enfiando as máscaras primeiro nas crianças e ficava desesperada pelo risco delas desmaiarem todas. É um erro muito comum: a gente se volta totalmente para os seres dependentes e esquece de nós mesmos. Mas se adoecermos, quem cuidará dos dependentes? Parece muito bobo eu escrever isto tudo aqui de maneira detalhada. Mas não é. Não é mesmo! Eu posso provar ao contar para vocês tudo o que já vi e vivi em duas décadas trabalhando com pessoas idosas e suas famílias. Seres humanos precisam de muita informação e de muita repetição para aprenderem algo! Isto se deve às emoções que nos movem pela vida. Amor não é um sentimento objetivo, é totalmente subjetivo, irracional e muito forte. Nós aprendemos a amar mais as pessoas que nos rodeiam do que a nós mesmos e, indiretamente, as prejudicamos por causa disso.

Então, o objetivo do texto de hoje é deixar todas estas reflexões para vocês e contribuir para um olhar mais apurado para as nossas próprias necessidades como indivíduos com desejos e paixões pessoais, que precisam ser respeitados pelo bem da nossa saúde mental. Também quero mostrar o quanto é importante não julgar quem cuida de uma pessoa dependente e sim oferecer ajuda quando estiver disponível. Os filhos cuidadores são pessoas como a gente, nós também temos idosos em nossas famílias e também somos cuidadores, em parte, até começarmos a cuidar por inteiro. Compaixão e empatia são sentimentos muito necessários nos tempos atuais e se encaixam perfeitamente aqui neste contexto.

Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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