Queixa de tontura em pessoas idosas

Brasília, sábado, 21 maio, 2022


Atualizado em: 21 maio, 2022

Olá, leitores! Como a ideia da minha coluna é sempre apresentar temas variados sobre envelhecimento saudável, gosto de citar assuntos que constituem situações comuns no dia a dia dos idosos e suas famílias e também no dia a dia de todos nós, que estamos envelhecendo e lidando com o processo também.

A tontura é um sintoma muito relatado nos consultórios médicos. Estima-se que seja a queixa mais comum relatada pelos idosos. Acima de 80 anos, há estudos que mencionam que 85% dos idosos se queixam de tontura.

Como sintoma inespecífico, a tontura pode ser relatada como “sensação iminente de queda”, obscurecimento da visão, sensação de cabeça vazia, “uma tonteira”, cabeça “zoada” e sensação de não conseguir manter a trajetória de locomoção durante a caminhada (desvios do trajeto para os lados). Entretanto, a vertigem, que é a tontura de caráter específico, caracterizada por sensação de perceber o corpo rodando no ambiente ou o ambiente rodando em torno do corpo, é também uma queixa muito comum.

E por que estamos falando sobre este assunto?
Porque, além de ser altamente desconfortável para o idoso, a tontura é uma causa importante de desequilíbrio corporal e de quedas em pessoas idosas. E já sabemos que cair não é nada bom para alguém que pode ter já dificuldade de se levantar ou mesmo uma predisposição maior a sofrer fraturas devido a osteoporose.

A perda de massa óssea – a osteoporose – ocorre com o envelhecimento e pode ser uma doença silenciosa se o idoso não tiver acompanhamento médico frequente, podendo ser descoberta somente após uma queda com consequente fratura.

O equilíbrio corporal é mantido, basicamente, por três sistemas sensoriais que informam o cérebro sobre o ambiente e possibilitam que a gente movimente e acomode o corpo adequadamente. São eles: sistema visual, sistema proprioceptivo e sistema vestibular.

O sistema visual é responsável pela sensação de profundidade, bem como pelo relato da posição e do movimento da cabeça em relação aos objetos circunjacentes, oferecendo referência para a verticalidade. No envelhecimento, é comum que tenhamos uma baixa da nossa capacidade visual e, portanto, é muito importante que a pessoa idosa seja avaliada periodicamente por um médico oftalmologista.

O sistema proprioceptivo diz respeito aos receptores sensoriais táteis e de vibração que estão
em nossa pele, articulações, músculos e tendões. Estes receptores fazem com que a gente possa sentir o nosso próprio corpo e a posição dele no espaço mesmo com olhos fechados. No envelhecimento, nós também temos perdas de alguns destes receptores.
O sistema vestibular fica lá no ouvido interno e é comumente chamado de labirinto, e sempre que alguém ouve a palavra “labirintite” já se lembra da sua existência. Ele é considerado o principal sistema responsável pelo equilíbrio corporal durante a execução de movimentos. O labirinto é responsável por um sentido considerado oculto, que somente é percebido quando se altera: a detecção do movimento da cabeça e o ajuste dos olhos em relação ao movimento do corpo, permitindo que a nossa visão funcione adequadamente mesmo com a gente se mexendo.

Labirintite é um termo errado porque esta é só uma das doenças que atingem o labirinto lá no ouvido interno causando vertigem e quedas. Já a tontura pode ter múltiplas causas, desde efeitos colaterais de medicamentos até alterações dos sistemas vestibular, proprioceptivo e visual.

Idosos com tontura ficam também com medo de cair e começam a evitar movimentos, ficando mais tempo deitados e sentados, o que os faz perder mais massa óssea e função muscular, tornando-os mais rapidamente frágeis e dependentes.

Entretanto, a tontura é considerada uma síndrome geriátrica devido às suas múltiplas causas, nem sempre claramente identificáveis por exames clínicos. Sendo assim, o melhor é sempre buscar ajuda médica e tentar identificar o maior número possível de fatores que podem estar causando o sintoma, de modo a conseguirmos agir sobre os que forem possíveis de serem modificados.

O envelhecimento do sistema vestibular, levando a uma baixa capacidade funcional do labirinto, também é muito comum em pessoas idosas, sobretudo nas acima de 80 anos. Então todo exercício que estimule a função labiríntica pode contribuir com uma melhor funcionalidade do órgão. Hidroginástica, esteira, caminhadas na rua e outras atividades que estimulam o movimento da cabeça e do corpo são excelentes alternativas para prevenção do sintoma de tontura.

Na fisioterapia, usamos técnicas específicas de reabilitação para pacientes com tontura, a reabilitação vestibular. Além disso, treinamos a função proprioceptiva, estimulamos o ganho de função muscular e óssea e treinamos mobilidade geral. Dessa forma, o sintoma de tontura pode ser eliminado completamente ou controlado com exercícios e orientações preventivas de quedas.

Se você ou seu familiar idoso está com tontura, procure seu médico de referência. Ele, provavelmente, irá encaminhá-lo a um otorrinolaringologista e depois a um fisioterapeuta especialista em reabilitação vestibular.

Eu comecei a trabalhar nesta área em 2004, quando tive meu primeiro paciente idoso com queixa de vertigem e desequilíbrio corporal. Depois disso, cheguei a coordenar um programa do Ministério da Saúde para capacitação de profissionais do SUS na identificação e manejo dos riscos de quedas e fraturas em idosos. É um assunto que considero fascinante porque está diretamente relacionado à promoção do envelhecimento saudável e da independência e autonomia dos idosos, ou seja, muito importante para a sua qualidade de vida.


Juliana Gai
Gerontóloga, Fisioterapeuta e Terapeuta em Saúde Mental
E-mail: gerontologiapratica@gmail.com
Instagram: @drajulianagai
Youtube: Gerontologia Prática

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