O que começou há quase duas décadas como uma tentativa de oferecer um futuro melhor aos filhos transformou-se em um exemplo de sucesso da agricultura familiar no Distrito Federal. Com apoio da assistência técnica da Emater-DF e muita disciplina, o casal Francisco Santos de Sousa e Maria do Rosário de Sousa saiu da condição de arrendatário para se tornar proprietário de duas chácaras em Brazlândia, consolidando um negócio rural que hoje garante renda, trabalho e perspectivas para toda a família.
“Chegamos aqui só com a força e a coragem, e a gente tinha um objetivo: sair da cidade”
Rosário de Sousa
Conhecidos na região como “Família F” — uma referência aos oito filhos Fábio, Fabiano, Fernanda, Felipe, Francisco Júnior, Fagner, Fabíola e Franciele — , Francisco e Rosário encontraram no campo não apenas uma atividade econômica, mas um projeto de vida.
Naturais da Paraíba, os dois passaram anos em São Paulo antes de decidir mudar de rumo. A preocupação com a criação dos filhos em meio à violência urbana foi determinante para a mudança. “Chegamos aqui só com a força e a coragem, e a gente tinha um objetivo: sair da cidade”, relata Rosário. “Isso porque a gente viu muitos filhos de amigos caírem nessas loucuras da vida, e eu vi nesse novo momento uma luz no fim do túnel”.
Crédito rural
Em 2006, a família chegou a Brazlândia. Nos primeiros anos, eles trabalharam em propriedades de terceiros, acumulando experiência e economizando recursos. Pouco depois, arrendaram uma pequena área para iniciar a própria produção. Foi nesse período que a Emater-DF entrou na história da família. O primeiro cadastro dos produtores junto à empresa foi feito em 2009, período em que a família começou a estruturar sua atividade rural em Brazlândia.
Desde então, recebeu apoio para acesso ao crédito rural, participação em programas governamentais de comercialização, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), além de orientações técnicas e gerenciais para ampliar a produção. Ao longo dos anos, diferentes extensionistas acompanharam o crescimento da propriedade, contribuindo para que a família conquistasse autonomia produtiva e financeira, consolidando-se como uma das referências da produção de morango na região.
“A gente trabalhava para crescer; se ganhava dez, usava dois para o consumo e reinvestia oito na lavoura”
Francisco de Sousa
“Na época, quando a gente estava começando a trabalhar, quase ninguém sabia mexer bem com o morango, e a gente foi aprendendo com a prática”, lembra Francisco. “Com a assistência da Emater, fomos nos desenvolvendo cada vez mais.”
Hoje, o carro-chefe da produção é o morango. Já no tempo de chuva, a propriedade diversifica o cultivo com hortaliças como cenoura, beterraba e outras culturas, garantindo melhor aproveitamento da área e geração de renda ao longo do ano.
Crescimento planejado
A estratégia da família sempre foi reinvestir grande parte dos recursos obtidos com a produção. “A gente trabalhava para crescer; se ganhava dez, usava dois para o consumo e reinvestia oito na lavoura”, resume Francisco. A disciplina financeira permitiu quitar financiamentos, acessar novas linhas de crédito e ampliar gradativamente a produção. O resultado foi a conquista da primeira propriedade rural própria e, posteriormente, de uma segunda área produtiva.
“A gente pensava: nossos filhos vão casar, cada um tem que ter a sua rocinha, então a gente teve que crescer para cada um ter a sua terra”, detalha Rosário. Hoje, a produção ocupa duas chácaras e sustenta uma estrutura familiar que envolve filhos, noras, genros e netos.
Sucessão
Um dos maiores orgulhos do casal não está apenas na produção agrícola, mas na permanência dos filhos no campo. Para a engenheira-agrônoma Nadja Oliveira, da Emater-DF, a família se tornou um exemplo bem-sucedido de sucessão rural.
“A gente vê que a sucessão familiar foi muito bem conduzida pelos pais”, avalia ela. “Os filhos viram os pais ganharem dinheiro com a cultura do morango, e, na minha visão, isso deu o impulso para eles permanecerem, porque é uma cultura que tem um valor agregado bom, e você vê que eles trabalham muito e por conta própria correm atrás pra melhorar cada dia mais.”
Nem sempre foi assim. Segundo Rosário, nos primeiros anos os filhos resistiam à rotina da lavoura. Com o tempo, passaram a enxergar na propriedade não apenas trabalho, mas perspectivas de crescimento pessoal e profissional. O incentivo aos estudos sempre caminhou ao lado da atividade rural.






