GDF lança comissão de sustentabilidade: o DF conseguirá cumprir as 169 metas da ONU até 2030?

Brasília, segunda-feira, 2 fevereiro, 2026

O novo órgão vai propor estratégias, instrumentos, ações e programas para a implementação dos ODS | Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília


Atualizado em: 2 fevereiro, 2026

Decreto cria órgão consultivo com 16 instituições para monitorar Agenda 2030, mas faltam 4 anos para o prazo – e nenhum indicador público de progresso foi divulgado até agora

O governador Ibaneis Rocha instituiu nesta segunda-feira (2) a Comissão Distrital para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (CDODS), através do Decreto nº 48.225. A medida coloca o Distrito Federal oficialmente na rota da Agenda 2030 da ONU – um plano global adotado por 193 países em 2015 que estabelece 17 objetivos e 169 metas para equilibrar crescimento econômico, inclusão social e proteção ambiental. O problema: faltam apenas 4 anos para o prazo final, e o DF até agora não publicou relatórios de progresso que permitam avaliar onde realmente está.

 

O que é a CDODS e quem a comanda

A comissão tem natureza consultiva e propositiva, ou seja, não executa ações diretamente, mas orienta estratégias e monitora iniciativas já existentes. É composta por 16 órgãos distritais, incluindo:

Secretarias-chave: Economia (que preside a comissão), Governo, Meio Ambiente, Desenvolvimento Social, Saúde, Educação, Transporte e Mobilidade, Relações Internacionais
Empresas públicas: SLU (limpeza urbana), Caesb (saneamento), Novacap (urbanização)
Órgãos técnicos: Adasa (águas e energia), IPEDF (estatísticas)

Cada instituição indica um titular e um suplente. O secretário-executivo de Gestão da Estratégia, Otávio Veríssimo Sobrinho, destaca que a missão é “acompanhar, monitorar e avaliar o desenvolvimento das propostas no DF, com relatórios periódicos que subsidiem a tomada de decisão”.

A pergunta incômoda: onde estão os dados?

A criação da CDODS em 2026 levanta uma contradição crítica: a Agenda 2030 foi estabelecida há 11 anos, em 2015. Se o DF já implementava iniciativas relacionadas aos ODS (como sugerem as autoridades ao falar em “sistematizar boas práticas”), por que só agora cria uma estrutura formal de monitoramento? E mais: onde estão os relatórios que mostrem como o DF avançou em objetivos como erradicação da pobreza (ODS 1), educação de qualidade (ODS 4) ou cidades sustentáveis (ODS 11)?

A ausência de um painel público de indicadores torna impossível para o cidadão – especialmente o morador de regiões como o Lago Sul, que cobra eficiência na gestão pública – avaliar se a comissão será um órgão de resultados concretos ou apenas mais uma estrutura burocrática.

O desafio dos números: 169 metas em 1.460 dias

Considere a escala do compromisso:
169 metas específicas a serem cumpridas até 2030
4 anos restantes = aproximadamente 1.460 dias
Isso significa que o DF precisaria avançar em uma meta a cada 8,6 dias, em média, para cumprir a agenda

A CDODS promete “relatórios periódicos de progresso”, mas o decreto não especifica frequência, metodologia ou transparência desses documentos. Para contexto: o próprio governo federal publicou apenas 3 relatórios nacionais desde 2015 – uma média de um a cada 3,6 anos, ritmo insuficiente para correções de rota.

O que isso significa para o morador do Lago Sul?

Embora a Agenda 2030 pareça abstrata, seus objetivos impactam diretamente a qualidade de vida na região:
ODS 11 (Cidades Sustentáveis): Gestão de resíduos, transporte público eficiente, áreas verdes preservadas
ODS 6 (Água Limpa): Qualidade do Lago Paranoá, abastecimento pela Caesb
ODS 16 (Paz e Justiça): Redução da criminalidade, transparência na gestão pública

A subsecretária Priscila de Paula afirma que a comissão vai “identificar e divulgar boas práticas” do DF. No entanto, não há menção a indicadores quantitativos ou metas localizadas por região administrativa. Sem isso, moradores de áreas de alto padrão como o Lago Sul – que frequentemente subsidiam serviços públicos através de impostos elevados – não conseguem cobrar resultados proporcionais.

O que a CDODS precisa entregar (além de decretos)

Para que a comissão seja mais que simbólica, três ações são urgentes:

  1. Dashboard Público de ODS: Painel online atualizado mensalmente com progresso em cada uma das 169 metas
  2. Relatórios Trimestrais: Não anuais. O prazo de 2030 exige agilidade
  3. Participação Social: Canais formais para que a sociedade civil – incluindo associações de moradores do Lago Sul – apresente demandas e monitore execução

A Agenda 2030 da ONU é a estrutura global mais ambiciosa de desenvolvimento sustentável já criada. A questão não é se o DF deveria persegui-la, mas se, com apenas 4 anos restantes e uma comissão recém-criada, o compromisso é realista – ou apenas uma formalidade administrativa para alinhar discurso com a comunidade internacional.