Créditos: Divulgação.
Atualizado em: 10 junho, 2025
Com abertura em 12 de junho, a mostra reúne filmes, fotografias e reportagens do diretor
de Iracema, uma transa amazônica (1974), filme censurado no Brasil e aclamado
mundialmente. Organizada pelo Instituto Moreira Salles, por ocasião dos 60 anos do golpe
militar, a mostra trata de temas que permanecem atuais, como a repressão e a exploração
do trabalho, a destruição ambiental e as lutas dos movimentos sociais. A entrada é
gratuita.
A exposição Que país é este? A câmera de Jorge Bodanzky durante a ditadura brasileira,
1964-1985 chega ao Museu Nacional da República, em Brasília, no dia 12 de junho,
após passar por São Paulo (SP) e Fortaleza (CE). Idealizada pelo Instituto Moreira Salles
(IMS), a mostra tem curadoria de Thyago Nogueira, com assistência da Horrana de Kassia
Santoz e pesquisa de Ângelo Manjabosco e Mariana Baumgaertner. No dia da abertura
(12/6), às 19h, haverá uma visita guiada com Bodanzky, seguida de sessão de
autógrafos do catálogo da exposição, que estará à venda no espaço.

Com entrada gratuita, a exposição reúne obras do fotógrafo, repórter e cineasta Jorge
Bodanzky (1942) concebidas durante a ditadura militar brasileira, incluindo trechos de sete
filmes dirigidos por Bodanzky, fotografias e projeções em super-8 que integram o acervo
do IMS, e reportagens audiovisuais feitas para a televisão alemã, entre outros materiais.
Bodanzky é autor de ampla produção visual, com foco na Amazônia, na cultura popular e
nos conflitos sociais do país. Nascido em São Paulo, em 1942, é filho de austríacos que
imigraram para o Brasil fugindo da perseguição nazista. Em 1964, ingressou na segunda
turma da recém-criada Universidade de Brasília, onde diz ter formado seu senso estético e
seu interesse social. Com o cerco da ditadura militar, seguiu para a Alemanha em 1966,
onde estudou cinema em Ulm, com o renomado Alexander Kluge. Em 1968, retornou para o
Brasil e passou a fotografar para as revistas Manchete e Realidade, entre outras, além de
atuar como diretor de fotografia em clássicos do Cinema Marginal. Em 1971, estreou como
diretor de cinema com o média-metragem Caminhos de Valderez, codirigido com Hermano
Penna, e filmado em Brasília. Nos anos seguintes, realizou inúmeros filmes.
Durante o período da ditadura militar, viajou sobretudo para as regiões Norte e Nordeste,
retratando, por um lado, a efervescência cultural e, por outro, a violência no campo e a
devastação ambiental causadas pelas políticas desenvolvimentistas dos governos autoritários. Enfrentando a censura e a falta de financiamento nacional, concebeu obras que
questionavam a ideia do progresso propagandeada pela ditadura e mostravam a realidade
do país, além de tensionarem os limites entre verdade e ficção.
Na exposição, quatro grandes telas de projeção exibem cenas dos principais filmes do
cineasta feitos no período, reorganizadas em função de eixos temáticos como as formas de
exploração do trabalho, os movimentos de luta e resistência, a religiosidade e a
espiritualidade populares, e as distintas visões de progresso. Cada projeção tem cerca de
25 minutos.
Entre os títulos incluídos, está Iracema, uma transa amazônica (1974), codireção de
Orlando Senna, obra mais conhecida e premiada de Bodanzky. O longa-metragem narra a
história de uma jovem mulher indígena (interpretada por Edna de Kássia), forçada à
prostituição, e um caminhoneiro gaúcho (interpretado por Paulo César Pereio), que vê na
recém-construída rodovia Transamazônica sua chance de enriquecer. Iracema denuncia a
violência do projeto desenvolvimentista da ditadura militar na Amazônia e ao mesmo tempo
reinventa o limite entre filmes de documentário e de ficção no cinema brasileiro. O filme
estreou na tevê alemã. Apesar do sucesso internacional, permaneceu censurado no Brasil
até 1981.

São exibidas também cenas de Gitirana (1975), dirigido com Orlando Senna. O roteiro do
filme se desenvolve a partir de várias histórias de cordel, entrelaçadas pela mesma
personagem, cuja vida sofre uma drástica transformação ao ser forçada a deixar sua terra
devido à construção da barragem em Sobradinho, na Bahia. Um dos filmes mais duros de
Bodanzky, feito no ano da redemocratização, Igreja dos oprimidos (1985), codireção de
Helena Salem, denuncia a violência no campo através da atuação da Igreja Católica
progressista e da Teologia da Libertação na luta por reforma agrária em Conceição do
Araguaia (PA).
Em Terceiro milênio (1980), Bodanzky acompanha o senador amazonense Evandro
Carreira em uma viagem pelo rio Solimões durante sua campanha pelo governo do estado.
O filme, dirigido em parceria com Wolf Gauer, registra o deslocamento do político e sua
interação com madeireiros, ribeirinhos e indígenas ao longo do percurso. A seleção inclui
ainda o longa de ficção Os Mucker (1978), baseado em revolta histórica ocorrida no Rio
Grande do Sul; Jari (1979), documentário dirigido com Wolf Gauer para denunciar a
destruição da Amazônia e a precarização dos trabalhadores no empreendimento do
empresário americano Daniel Ludwig; e o média Caminhos de Valderez (1971), primeiro
filme de Bodanzky, rodado em Brasília e no Vale do Amanhecer.
A mostra também exibe trechos de filmes em que Bodanzky colaborou como diretor de
fotografia, formando sua maneira de filmar e encarar o cinema, entre eles Hitler IIIo mundo
(1968), de José Agrippino de Paula, Compasso de espera (1973), de Antunes Filho, e O
profeta da fome (1970), de Maurice Capovilla.
Outro núcleo importante da mostra traz reportagens e programas institucionais feitos por
Bodanzky para a tevê alemã, pouco conhecidos no Brasil. Estão incluídos um documentário
feito com estudantes da Escola de Ulm sobre a repercussão do assassinato de Benno
Ohnesorg durante protesto contra a visita do xá do Irã à Alemanha, em 1967; registros da detenção do grupo de teatro The Living Theatre em Ouro Preto, em 1971; as associações
culturais comunitárias no governo de Salvador Allende em 1971, pouco antes do golpe
militar no Chile; e um filme que traça um paralelo entre a vida de dois operários da
Volkswagen, um no Brasil e outro na Alemanha. No grupo de reportagens, é destaque um
pequeno trecho mudo de uma entrevista com o general Hugo Banzer, pouco depois de ele
tomar o governo da Bolívia através de um golpe de Estado, em 1971.
Desde 2013, o IMS preserva a obra fotográfica e os filmes super-8 de Bodanzky. Nas
paredes da exposição, o visitante encontrará ainda fotografias feitas pelo artista nas
décadas de 1960 e 1970, durante suas viagens pelo Brasil. Há imagens experimentais
produzidas em Brasília, cenas de reportagens feitas para a revista Realidade e flagrantes
do cotidiano do país. Na obra fotográfica, chama a atenção o uso do para-brisa de carros,
aviões ou helicópteros para enquadrar a realidade, um recurso que sugere a formação do
olhar narrativo e cinematográfico de Bodanzky.

Muitos de seus filmes super-8 também são apresentados pela primeira vez na exposição.
Mudos e com rolos de curta duração, os super-8 eram usados na prospecção de locações e
no exercício livre da linguagem fotográfica, A exposição reúne, por fim, entrevistas recentes
com Bodanzky, as atrizes Edna de Cássia, do filme Iracema, e Valderez, de Caminhos de
Valderez, além de análises de críticos como Claudia Mesquita, professora da UFMG, e do
cineasta e historiador Joel Zito Araújo.
Jorge Bodanzky comenta a exposição e o caráter político da produção apresentada: “É
realmente incrível a possibilidade de poder mostrar ao público meus arquivos de filmes,
fotografias, vídeos e super-8 simultaneamente. Isso só foi possível porque, ao tempo em
que eu filmava, ia fotografando e registrando para mim, como numa espécie de caderno de
notas, todas as experiências vividas, os fatos observados. Passados tantos anos, fica nítido
que esse vasto material compõe um todo, uma parte iluminando a outra e formando um
conjunto único, orgânico.” Sobre o período contemplado na mostra, o artista também afirma:
“Escolher o período da ditadura militar é igualmente oportuno, pois sem uma leitura lúcida
do passado, que talvez a exposição provoque, não conseguiremos vislumbrar um futuro
democrático e livre para o nosso país”.
Ainda sobre as obras exibidas, e a possibilidade de assisti-las no contexto atual, o curador
Thyago Nogueira ressalta: “Boa parte desta produção ainda é pouco conhecida, seja em
razão da censura da época, da falta de financiamento nacional ou do reduzido circuito de
exibição dedicado ao cinema ativista. Em conjunto, esta obra revela o papel crucial das
imagens na luta por direitos e na compreensão do panorama complexo e muitas vezes
contraditório do país. A produção de Bodanzky é um convite urgente e atual para repensar a
democratização do país e a renovação do cinema político.”
Sobre a circulação da mostra no Museu Nacional da República, a diretora Fran Favero
comenta a relevância de receber o trabalho de Jorge Bodanzky na capital federal: “É um
imenso privilégio receber a produção de Bodansky em Brasília, cuja trajetória está marcada
por sua passagem pela cidade e pela UnB. O Museu Nacional da República Honestino
Guimarães possui em seu próprio nome uma homenagem a um dos muitos desaparecidos
políticos da ditadura. Receber esta exposição que discute esse período político, em uma
instituição localizada no coração da capital federal, é uma oportunidade única para reflexões
coletivas acerca do passado e futuro do país”.
Acompanha a exposição um catálogo com fotos, cronologia completa, entrevista com
Bodanzky, além de textos de Ailton Krenak, Claudia Mesquita, Joel Zito Araújo, Horrana de
Kássia Santoz e Luara Macari.
Serviço
Que país é este? A câmera de Jorge Bodanzky durante a ditadura brasileira,
1964-1985
Abertura: 12 de junho, às 19h, com visita guiada com Bodanzky, seguida de sessão de
autógrafos do catálogo da exposição
Visitação: até 21 de setembro
Museu Nacional da República
Terça a domingo
9h às 18h30
Entrada gratuita
Setor Cultural Sul, Lote 2, Cep 70070-150, Brasília – DF








